Segunda-feira, Julho 23, 2007

A fé e as obras do Evangelho - Agostinho e Francisco de Assis

Amigo,


Compartilho com você duas belas e profundas citações que li recentemente. Ouso afirmar que elas se complementam de modo perfeito.


"Se, no Evangelho, você crê no que quer e ignora o que não quer, você não crê no Evangelho, mas em si mesmo." Agostinho (séc V.)


"Pregue o Evangelho sempre, se (quando) necessário, use palavras." Francisco de Assis (séc. XII)

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P.S

"A fé que Paulo aprova não é a mesma que Tiago condena. As obras que Tiago aprova não são as mesmas que Paulo condena." Marcos Alexandre (séc. XXI)


Terça-feira, Julho 17, 2007

John Piper e a Teologia da Prosperidade - agora com tradução!

Caros irmãos e amigos,

Vejam esse excelente vídeo de apenas 3min em que o Pr John Piper¹ demonstra com toda convicção o posicionamento bíblico do verdadeiro evangelho frente à Teologia da Prosperidade. Agora, com tradução!

Confiram o vídeo e a tradução:








Seria interessante que alguém conseguisse usar esse vídeo e inserir a tradução. Fica uma sugestão para quem sabe como utilizar os recursos do Youtube.

Versão muito bem traduzida e adaptada, onde foi necessário, por Eduardo Mano:


Eu não sei o quê você sente em relação à Teologia da Prosperidade, mas eu vou lhe dizer o que eu sinto: ódio.

Isso não é o Evangelho. E está sendo exportada deste país (EUA) para a Ásia e a África, vendendo um cardápio de benefícios aos mais pobres dos pobres. Eles dizem: “Creia nessa mensagem e seus porcos não irão morrer, e sua esposa não terá abortos, e você terá anéis em seus dedos e casacos nas suas costas”.

Isso está saindo da América. Pessoas às quais nós deveríamos dar nosso dinheiro, nosso tempo e nossas vidas, ao invés de vender a eles um monte de esterco que eles insistem em chamar “evangelho”.

E esta é a razão pela qual a Teologia da Prosperidade é tão horrenda. Qual foi a última vez na qual um americano, um africano ou um asiático jamais disse que Jesus é totalmente satisfatório por causa da BMW que possuía?

Nunca.

Eles dirão: “foi Jesus quem te deu isso? Eu aceito esse Jesus!”

Isso é IDOLATRIA. Isso não é o Evangelho. Isso é colocar os dons acima de quem deu os dons.

Eu vou te dizer o que faz Jesus parecer lindo.

É quando você bate seu carro e sua filhinha voa através do pára-brisas... e cai morta na rua... e você diz, em meio a mais profunda dor possível: “Deus me é suficiente. Ele é bom, Ele cuidará de nós, Ele irá nos satisfazer, Ele nos fará passar por isso. Ele é nosso TESOURO. A quem tenho eu no céu além de Ti? E na terra, não há nada que eu deseje mais que a Ti. Minha carne e meu coração e minha filhinha desfalecem, mas Tu és a força do meu coração, e a minha porção para sempre.”

Isso faz Deus parecer Glorioso. Como Deus. Não como alguém que dá carros, segurança ou saúde.

Oh, como eu oro para que o Rio de Janeiro* seja liberto de Teologias que enfatizam a saúde, a riqueza, a prosperidade; de fato, que o Brasil** seja liberto. E que a Igreja Cristã seja conhecida por SOFRER por Cristo.

DEUS É MAIS GLORIFICADO EM VOCÊ QUANDO VOCÊ ESTÁ MAIS SATISFEITO NELE EM MEIO À DOR E POBREZA, E NÃO EM MEIO À PROSPERIDADE.



* Originalmente era Birmingham (U.K.)

** América (U.S.A)



1 - O Pr Piper é batista reformado, pregador da Bethlehem Baptist Church em Minneapolis, Minnesota - Estados Unidos. O site oficial do seu ministério é http://www.desiringgod.org/


No Brasil já temos algumas obras traduzidas, como Teologia da Alegria, editado pela Shedd Publicações. Inclusive, esse pastor é um dos preferidos do Dr Russell Shedd.

A Teologia da Alegria deve ser lido por todos os cristãos, pois é um banquete para os que estão espiritualmente famintos.
John MacArthur

No centro do plano de Deus está a importância do desejo de comunhão e do Cristo que satisfaz todos os anseios do coração. Piper resgatou esta centralidade do plano de Deus, tão esquecida hoje em dia, apresentando-a de forma nova e atraente.
Larry Crabb

O realismo bíblico e saudável deste estudo em motivação cristã vem para nós como uma brisa refrescante.
J I. Packer

Este livro foi revolucionário para mim, uma verdadeira mudança de paradigmas.
Dr. Russell Shedd



Terça-feira, Julho 10, 2007

10 de Julho, nascimento de João Calvino

Caros leitores,


Hoje, dia 10 de Julho, comemora-se o nascimento de João Calvino (1509-1564). Não se poderia deixar passar em branco esta data, especialmente num blog de alcunha calvinista. O artigo é uma transcrição de Anamim Lopes.

O que torna esse texto mais interessante é o seu autor - um católico romano. Isso fica evidente até o desfecho do artigo.

Que sirva de homenagem a Calvino no mês de seu aniversário. Para mim, este texto é um dos testemunhos mais tocantes acerca de João Calvino, trazido por um insuspeito historiador católico-romano. Anamim Lopes.


Texto também postado na Confraria Calvinista Visite!

Morte e Glória de João Calvino

Por Daniel-Rops, da Academia Francesa, autor católico-romano,escritor de "História da Igreja" em 10 Volumes. O excerto encontra-seno Volume IV, "A História da Renascença e da Reforma (1)", pgs. 419-422, Ed. Quadrante - 1996.


Na véspera do Natal de 1559, quando pregava na Igreja de São Pedro, abarrotada de gente, Calvino teve de forçar a voz. No dia seguinte, atacou‑o uma tosse violenta e começou a escarrar sangue. O médico diagnosticou‑lhe uma doença contra a qual ainda não existia nenhuma arma: a tuberculose. O enfermo tinha apenas cinqüenta anos, e o seu caso não teria sido desesperado se o seu organismo, atacado desde há muito tempo por muitos inimigos, desgastados pelo trabalho e pelas preocupações, não fosse na realidade, o de um velho precoce ‑ o velho, cuja máscara trazia. Despertados pelo novo abalo, todos os males que já lhe eram familiares lançaram‑se ao ataque: pulmões, rins, intestinos, encéfalo e até os braços e as pernas. Dentro em breve, não houve uma única parte desse organismo que não fosse motivo e foco de dores terríveis.


Calvino suportaria essa provação durante cinco anos, com uma coragem física e uma firmeza admiráveis. Torturado pelas cólicas, pela febre e pela gota, nem por isso deixou de dar prosseguimento aos seus trabalhos, à sua correspondência, aos seus livros e mesmo à sua pregação, que no entanto lhe exigia um esforço sobre‑humano. Nos dias em que não podia manter‑se em pé, pregava sentado, e, se não conseguia andar, dois homens o levavam à igreja numa cadeira. Por vezes, as dores eram tão fortes que o ouviam murmurar, como numa prece a pedir a libertação: "Até quando, Senhor, até quando?"


Perante a morte que via aproximar‑se, mostrou‑se o que sempre fora: lúcido, firme e reservado. Nem uma só vez deixou transparecer temor ou fraqueza. Segundo um plano traçado com a sua lógica costumeira, fez o seu testamento e recebeu, uns após outros, os corpos constituídos da cidade, desde o Pequeno Conselho até os pastores. A estes, fez um longo e minucioso discurso, em que resumiu com fórmulas incisivas toda a sua obra, nesse tom de sincera humildade e tranqüilo orgulho que fazia parte do seu modo de ser. Convidou os seus colegas a mostrarm-se firmes e vigilantes para com essa "nação perversa e má" que lhes estava confiada, e concluiu afirmando‑lhes que não tivera outro desígnio sobre a terra senão ser‑vir a glória de Deus. Parecia ter ditado ali o seu testamento espiritual.


No entanto, a morte concedeu‑lhe um novo adiamento. Farel teve tempo de vir vê‑lo pela última vez. E ele próprio, o moribundo ‑ o seu aspecto era já o de um cadáver ‑, sabendo que, de acordo com a legislação eclesiástica por ele estabelecida, a reunião das "censuras" trimestrais recaía no dia 19 de maio, ordenou que o levassem até lá para participar pela última vez dessa fraternal acusação de culpas. Humildemente, foi o primeiro a sub­meter‑se à censura e a deixar que lhe referissem os seus defeitos: "Ira,teimosia, crueldade e orgulho". Depois, com a voz ofegante, cortada sem cessar por acessos de tosse, falou durante duas horas, prevenindo os seus ouvintes contra as más inclinações. A seguir, elevando‑se aos grandes princípios, comentou apaixonadamente o Evangelho.


Foi esse o seu último ato público, e o esforço exigido deixou-o esgotado. No dia seguinte, sobreveio nova expectoração sangüínea. Não abandonou mais o leito e falava com dificuldade, exceto para murmurar as suas orações. Ouviam‑no dizer várias vezes: "Senhor, tu me esmagas, mas para mim é suficiente que seja pela tua mão". Ninguém o viu entregar a alma ao Criador, calmamente, em 27 de maio de 1564, por volta das oito da noite. De acordo com a vontade que manifestara no testamento, envolveram‑lhe o corpo num grosseiro pano cru e depositaram‑no num caixão de pinho semelhante àqueles com que se enterravam os pobres. Sem discurso e sem cantos, foi conduzido por uma imensa multidão ao cemitério de Plainpalais. Não se erigiu nenhum monumento sobre o túmulo, nem mesmo uma cruz ou a menor pedra. Assim desejara ele regressar ao pó, no anonimato e no silêncio. E ninguém pode hoje indicar com certeza o lugar onde jaz João Calvino.


Poucos homens, no entanto, deixaram sobre a terra um rastro tão profundo. Quem poderá negar a sua grandeza? Semeou grandes idéias, realizou grandes coisas e determinou grandes acontecimentos. A história não teria sido tal como foi se ele não tivesse vivido, pensado e agido com a sua vontade implacável. Perto de cinqüenta milhões de cristãos seguem hoje os seus ensinamentos, dos quais quarenta e um entre os reformados e os presbiterianos, e cinco entre os congregacionalistas. Talvez não haja nenhum setor do protestantismo onde não se possa encontrar alguma moeda do seu tesouro. Mas reconheceria ele como seus herdeiros aqueles que fazem profissão de prolongar a sua mensagem e que, no entanto, na sua quase totalidade, abandonaram a tese a que ele se apegava mais do que à vida ‑ a predestinação ‑ e muitas vezes deixaram deslizar a sua mensagem de fogo para uma espécie de sentimentalismo igualitário e moralizador? Essa é uma outra questão. Não resta qualquer dúvida, porém, de que a sua influência foi determinante, até no desenvolvimento do capitalismo, da democracia e do socialismo... Calvino pertence incontestavelmente ao pequeníssimo grupo de mestres que, no decorrer dos séculos, moldaram com as suas mãos o destino do mundo.


Não é fácil julgar um homem de tal calibre; só o pode fazer Aquele que "sonda os rins e os corações". Por isso, as opiniões a seu respeito têm sido sempre contraditórias; Michelet exaltava sem medida a sua obra libertadora"; Renan via nele um banal ambicioso obstinado. Podemos fazer coro com os seus partidários e admirar o seu gênio, a sua acuidade na apreensão dos grandes problemas e o seu poder de síntese e organização. Podemos mesmo admitir essa espécie de sedução fria que, como todos os grandes espíritos, exerce sobre os que gostam das idéias longamente perscrutadas e perfeitamente expressas. E seria cometer uma enorme injustiça não reconhecer o seu ardente zelo por Deus, a sua paixão por conquistar almas, a seriedade trágica com que sempre encarou a sua vocação e o seu indefectível sentido do dever. Mas como podemos deixar de notar que faltaram a essa personalidade excepcional as duas virtudes essencialmente cristãs que deveria tê-la modelado? A humildade verdadeira, não só perante Deus, mas também perante os homens, essa humildade que um dia haveria de levar São Vicente de Paulo a lançar‑se de joelhos aos pés de um transeunte que acabara de esbofeteá‑lo; e a bondade verdadeira, que sabe amar os homens apesar da sua abjeção, por causa da sua abjeção, e que toda a falta sempre encontra propensa à misericórdia. Perfeito leitor do Evangelho, Calvino teria compreendido os seus dois mais belos preceitos? Que é preciso ser o último na extremidade da mesa e que é necessário amar os inimigos?


[...]


As opiniões divergem também quanto ao seu papel histórico. "Calvino é o primeiro destruidor do protestantismo autêntico", diz um; "0 calvinismo salvou o protestantismo", diz outro. As duas opiniões são simultaneamente verdadeiras. É verdade que Calvino empurrou o protestantismo para longe das suas bases e para fins que Lutero não desejara. Mas os rumos que o monge de Wittenberg queria tomar não desembocariam nos impasses da anarquia ou da submissão aos Estados? 0 protestantismo ficou a dever a Calvino a sua ordem, a sua fé comum, os seus quadros, os seus métodos, e também esse ar grave e respeitável, mais do que amável, que se lhe reconhece. Deveu‑lhe um novo tipo de homem religioso.


Mas Calvino foi sobretudo o homem da ruptura decisiva, e é neste ponto, mais do que em qualquer outro, que um católico não pode deixar de sentir horror por ele. Muito mais do que Lutero, empenhou‑se com uma espécie de rigor luciferino em levantar uma muralha intransponível, ou um abismo, entre a Igreja que lhe dera o batismo e aquela que ele queria "erigir". Que o seu papel, dialeticamente, tenha podido ser afinal de contas favorável aos desígnios da Providência ‑ como o do seu predecessor ‑, e que o terrível raio com que ele feriu a cristandade tenha acabado por provocar nela o grande despertar, é uma verdade incontestável, mas nem por isso desculpa a sua falta. Depois dele, toda a esperança de recosturar os pedaços da Túnica inconsútil, tão horrivelmente dilacerada, se desfez durante séculos. Tal é, em última análise, o significado que se desprende desta vida humana e desta mensagem; tal foi o êxito de João Calvino.

Sexta-feira, Julho 06, 2007

O triunfo da graça: salvos de nós mesmos!

Uma breve meditação a respeito da vida cristã

Todo aquele que nasceu de novo tem a alegria e a paz que vem de Deus. Ele sabe que nenhuma condenação há aos que estão salvos em Cristo. Sem estar clara essa resplandecente bênção da salvação, a vida cristã se tornará desastrosa. Sim, Deus quer que seus filhos saibam que eles jamais serão condenados, pois Cristo já levou nossa condenação. Deus quer que a sua Igreja tenha ousadia de viver totalmente alicerçada sobre a rocha que é Cristo. Quem venham os ventos, tempestades, estamos firmes Neste fundamento!

Porém não é só esta bênção que está relacionada à salvação. Deus, quando declarou definitivamente a nossa vida como se fosse justa e perfeita - a justificação que temos em Cristo (leia aqui um estudo sobre este assunto)- nos capacitou a obedecê-Lo. Assim é que passamos a desejar viver uma vida sem pecado tendo como alvo o Segundo Adão que é Jesus. Antes não tínhamos esse desejo e a nossa vontade era escrava de nossa velha natureza (Ef 2.1-10).

O fato de desejarmos viver a nova vida ao recebê-la por meio de Cristo é o triunfo da graça não somente nos livrando da justa condenação eterna, mas também sobre a nossa natureza pecaminosa que dominava os desejos do coração, fruto da nossa incredulidade (Rm 8.6-8). Paulo afirma aos que diziam que estavam livres para viverem como bem quisessem que, se de fato foram livres da condenação, também foram feitos servos de Deus.

O apóstolo mostra que a nova vida que é originada na ação graciosa de Deus implica na obediência ao Evangelho. Para que não duvidemos que tanto a libertação da condenação como também o nosso desejo de obedecer a Deus é fruto da mesma graça, o apóstolo diz:

Mas graças a Deus que tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. Rm 6.17


Concluímos, portanto, que quem é nascido de novo, do Alto, teve o seu coração mudado para desejar viver conforme a vontade do seu Senhor. Observemos ainda que a expressão "Graças a Deus" nesta citação não é um dizer vão, mas uma forte declaração do poder transformador do Senhor que triunfa sobre a nossa rebeldia. Antes, sem a operação da graça, servíamos a nossa carne. Calvino (in loc), comenta esta passagem da seguinte forma:

[...] Deve-se notar que ninguém pode servir à justiça e não ser que seja antes libertado da tirania do pecado, pelo poder e benevolência de Deus, como Cristo mesmo testifica: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis sereis livres” (Jo 8.36). Se o início da virtude depende do ato de livramento que somente a graça divina pode efetuar, como nos prepararemos para receber esta graça pelo poder de nosso livre-arbítrio? [...]¹


Por fim, a doutrina da graça que recebemos não tem o intuito de desvendar os mistérios da soberania de Deus aos curiosos ou aos que nada desejam saber verdadeiramente sobre uma vida de santificação. A doutrina da graça é para ser ensinada de forma que dê consolo aos filhos de Deus em sua jornada. Os salvos devem ter a plena certeza de que uma vez que foram transformados, dia a dia, viverão perseverantes nesta fé mesmo ainda que com gemidos nesta terra pela redenção dos seus corpos. A luta cessará um dia, definitivamente, pela mesma Graça poderosa que começou a boa obra (Fp 1.6) nos seus corações! Tudo isso por meio de Cristo que resgatou um povo exclusivo para Deus Pai (I Ped 2.9).




CALVINO, João. Romanos. Trad. Valter Graciano Martins. 2ª ed. São Paulo, Edições Paracletos, 2001, pp. 228.





Segunda-feira, Julho 02, 2007

Novo artigo n'O Tempora, O Mores! - Heterofóbicos atacam novamente

Caros irmãos e amigos ,

Recomendo a leitura desse bravo artigo do blog O Tempora, O Mores!, inclusive, os comentários que estão sendo feito a respeito postados lá.

Trechos da postagem do blog:

Esta breve postagem é só uma continuidade de outras anteriores tratando da chamada lei contra a homofobia, o PLC 122/2006, que cria uma casta especial de cidadãos homossexuais, com direitos especiais, que ninguém mais tem, proibindo o direito da liberdade de expressão de quem quer que seja. A lei legaliza a heterofobia.

[...]

Um colega, pastor, enviou a seguinte carta aos Procuradores do Estado da Paraíba,ilustrativa do tipo de ação que devemos tomar:

Exmos. Senhores Procuradores do Estado da Paraíba,

Tenho acompanhado pela mídia o caso dos out-doors em Campina Grande-PB e fiquei estarrecido e muito preocupado com a decisão judicial contra a exposição da mensagem dos referidos cartazes.

Pois trata-se tão somente da manifestação da convicção religiosa de cidadãos brasileiros da Paraíba, que simplesmente transcreveram um texto da Bíblia, sem nenhum traço de violência ou de incitação à mesma.

Porque será que um grupo pode manifestar livremente as suas opiniões e convicções e outros não? Será que temos em nosso país, brasileiros que sejam mais brasileiros do que os demais? Será que temos uma casta de brasileiros da qual ninguém pode discordar? É crime ter opinião e expressa-la?

Senhores isto é muito sério, pois tal decisão fere o sagrado direito à liberdade de consciência e de expressão;

POR ISSO SOLICITO A INTERVENÇÃO DOS SENHORES NESTA SITUAÇÃO FAZENDO VALER OS DIREITOS CONSTITUCIONAIS DAQUELES QUE, RESPEITOSAMENTE, SE MANIFESTARAM CONTRA A PRÁTICA HOMOSSEXUAL.

Rev. Paulo Fontes
Igreja Presbiteriana Ebenézer, SP

[...]
Para ler integralmente o texto, clique aqui





A sacralidade do Estado Laico e a destruição da fé religiosa

Amigos leitores,

Reproduzo um texto pertinente aos nosso dias. Concordo quase em 100% do conteúdo. É para se pensar.

Quando surge em público um debate sobre o aborto, a eutanásia, o casamento gay ou mesmo sobre a Evolução das espécies, a primeira desonestidade intrínseca destas conversações é excluir, de forma prévia e sumária, as idéias religiosas. Parte-se de vários pressupostos sofísticos, entre os quais, cabe destacar alguns: a idéia de que o método cientifico é superior aos argumentos religiosos; ou de que o Estado, sendo laico, não admite as idéias religiosas e tem primazia sobre elas ou sobre a moralidade vigente. Quando um militante cristão faz sua defesa pública contra o aborto, eutanásia ou o casamento gay, este é censurado pelo clichê divinizador do laicismo institucional, como se o poder estatal tivesse algum argumento supremo, acima das idéias da Igreja ou de outras religiões.

Isso parte de uma idéia falsa de que os valores religiosos são meros caprichos particulares, e que por trás dessas crendices, a soberania das leis e da ideologia civil do Estado é algum ente superior, acima dos princípios morais e individuais da sociedade e do indivíduo. Na idéia mesma da supremacia da cultura estatal laicista, há uma completa absolutização da autoridade do Estado, enquanto a crença particular de cada cidadão é relativizada. Aqui não há uma relação no plano das idéias, mas uma relação de força. A perversão moral do Estado laico está em dissociar completamente sua reserva legal da moralidade vigente, criando e fundamentando um escopo jurídico coercitivo, à revelia das crenças e dos costumes da sociedade. Isso, quando não é contrário e elas.

Há de se considerar que a existência inicial do Estado Laico não possuía este propósito ateísta explícito: veio propor uma solução conciliatória às dissidências político-religiosas que sangraram a Europa da Idade Moderna. A grande precariedade do mundo medieval era precisamente os seus valores de consenso político, já que a religião católica, embora fosse fé comum, não conseguia harmonizar as diferenças teológicas internas do cristianismo. Daí que no século XVI, com o advento da Reforma Protestante e do fortalecimento do Estado Nacional moderno, a Europa caiu numa guerra civil e internacional por causa dos aspectos teológicos da religião na política. Na prática, a abstenção de religião no Estado laico era justamente no sentido de preservar a liberdade religiosa e impedir que qualquer força estatal pudesse coagir os cidadãos ou súditos a traírem suas razões de consciência, por questões de fé. No entanto, os pressupostos iniciais do Estado laico não se isentavam das referências morais vigentes. As relações tradicionais da família, da propriedade, da educação moral e religiosa foram perfeitamente preservadas e serviam de referência para as leis do governo. Em suma, os valores morais comuns, compactuados por essa sociedade, equilibravam e orientavam os princípios legais e governamentais. Por outro lado, as limitações jurídicas iniciais do Estado laico incrementavam maior liberdade ao indivíduo, já que as escolhas religiosas pessoais davam uma margem de de liberdade de escolhas morais compactuadas pela sociedade. O Estado laico, enquanto apenas um poder regulador de relações públicas, deixava à sociedade e ao indivíduo, o direito de fazer julgamentos morais, sem o propósito de coerção no plano das idéias, que caracterizava um governo institucionalmente religioso.

O propósito, que nasceu nobre, porque visava não confundir as relações políticas das crenças religiosas, acabou por ser deturpado pelas idéias revolucionárias do século XVIII e XIX. Há de se destacar algumas dessas idéias que fizeram mudar radicalmente o caráter do Estado laico: a presença das massas na democracia; o absolutismo do método científico como explicação totalizante de todos os fenômenos naturais e sociais; e o positivismo jurídico, que negando qualquer valoração absoluta acima das leis do Estado, acabou por sacralizar a autoridade da norma.

A ascensão das massas na democracia foi um dos processos mais traumáticos da política contemporânea. Ela incrementou um alargamento tal da autoridade do Estado, que no final, engendrou o totalitarismo moderno e a idolatria da poder político. O princípio da maioria na democracia moderna, sem valores e referenciais morais que orientassem os anseios da sociedade política, acabou por absolutizar a opinião da coletividade, e, concomitantemente, legitimar a autoridade absoluta do Estado. O que era antes a legitimidade perante o direito natural e mesmo o direito divino, agora se tornou a "opinião da maioria", por mais arbitrária que fosse sua conseqüência. Na prática, o Estado moderno se beneficiou muito com essa ideologia, ao proclamar uma totalidade na figura suprema do princípio majoritário. E como esse princípio está acima de qualquer postulado racional da política, é perfeitamente possível suprimir as liberdades democráticas, em nome da maioria. Em outras palavras, o processo democrático pode suicidar-se por métodos democráticos. E qualquer poder estatal se elevará nas alturas com essa prerrogativa. O nazismo e outros regimes totalitários tiraram bastante proveito dessa falha notória da democracia.

A ideologia laica do Estado moderno casou-se perfeitamente com a tese totalizante do pensamento científico. A idealização de uma sociedade politicamente holística e mecanicista, tal como uma reprodução fiel de abelhas e formigas, re-programada, homogênea, sem aspirações independentes, impregnou o pensamento político desde à Renascença e teve seu auge nos séculos XIX e XX. Aliás, o pensamento cientifico ganhou auras de seita ocultista: expulsando a religião cristã dos debates públicos, tornou-se uma espécie de "nova religião" da modernidade. Na verdade, o método científico se prestou a explicar a totalidade das coisas e querer moldá-las dentro das projeções das consciências dos cientistas e engenheiros sociais. É partindo daí que as teses mais simplistas da ciência são também as mais populares, porque elas visam substituir as explicações filosóficas e poéticas da religião.

Quando Freud reduz a humanidade e sua cultura a mera extensão da libido; quando Marx afirma que a cultura e o pensamento são frutos da produção material da sociedade; quando Nietszche declara que somos apenas vontade de poder; e quando alguns biólogos dizem que somos egoístas para preservar um código genético, percebe-se o quanto esses argumentos simplórios, reducionistas e pobres querem substituir os elementos filosóficos da fé religiosa. Na verdade, esses homens ilustres da ciência e do intelecto são ocultistas: eles presumem descobrir algo secreto na humanidade que esconde suas reais intenções. Em suma, são como os novos profetas, descobrindo "revelações", não de Deus, mas da natureza. Para Freud, a religião é ilusão que reprime nossa sexualidade e compensa nossas carências paternais; para Marx, a fé é algo que camufla o ópio do povo e o domínio das elites; Nietzsche diz que a religião é apenas para dominar os fracos de espírito ou então para rebaixar os mais fortes; e para os biólogos, a religião é pura fantasia mitológica, que explica os fenômenos que eles ainda não descobriram. Não é por acaso que esses argumentos acabam se tornando formas de fé, dogmas ideológicos sob a pecha de "pensamento científico". Seus seguidores são aguerridos, até fanáticos, capazes de matar por essas idéias. Essas crenças forjadas de "ciência" acabam por tapar os buracos da ignorância humana e compensar uma forma de sentido da vida. A loucura mitológica do pensamento científico chegou a tal ponto, no século XIX, que um de seus maiores apologistas, como Augusto Comte, presumia criar uma religião da humanidade, deidificando a ciência e forjando um novo catecismo e uma nova Igreja . No século XX, a ideologia de Marx encarnou perfeitamente a prática bolchevista de Stalin; a biologia evolucionista e a visão nietzscheana da vontade do poder encarnaram o nazismo de Hitler; e a libido freudiana serviu de pretexto para a liberação das mais perversas de formas de conduta moral e sexual, com a revolução cultural apregoada pela militância de esquerda.

E por fim, o positivismo jurídico. O juspositivismo de Hans Kelsen presume que o fundamento maior do direito é a norma, em particular, a norma estatal, não havendo nada refratário que possa conter a lógica pré-ordenada de sua estrutura jurídica. Na prática, a idéia mesma totalizante da norma acaba por acrescer o Estado de uma autoridade absoluta no plano da aplicação jurídica. A norma não tem princípios absolutos que a direciona, é um fim em si mesmo! Como toda sociedade jurídica é um projeto meramente normativo, dentro dessa lógica, toda estrutura jurídica é conceitualmente legal e válida, ainda que ela fira princípios considerados "morais". Foi a partir dessa suprema legalidade estatal que Hitler destruiu os direitos civis dos judeus e hoje as democracias acatam o aborto e a eutanásia como algo válido, porque são legais. A inversão do conceito não seria mais clara. Em nome de dissociar radicalmente a relação entre direito e moral, o direito se torna uma completa alienação na conduta cotidiana dos indivíduos e da realidade mesma.

Se a ideologia do ateísmo militante, do materialismo, do cientificismo, da massificação democrática, do positivismo jurídico e do culto do Estado laico, incorpora uma forma perigosa, divinizatória e absolutista de poder, a única resistência concreta a essa forma de idolatria é a fé cristã e as instituições que a preservam, como a Igreja, a família e a propriedade. São os pressupostos morais do cristianismo no ocidente que colocam em clara evidência a defesa dos critérios universais e absolutos da ética elementar de humanidade do indivíduo. Curiosamente, os religiosos são acusados precisamente daquilo que não são, ou seja, fanáticos que desejam impor conceitos religiosos através do Estado. Pelo contrário, a religião apenas quer preservar os valores morais que implicam a preservação de qualquer consenso político, como a dignidade intrínseca da vida, da liberdade de consciência e da propriedade. É muito mais libertário crer que existam pressupostos morais absolutos que limitem o poder do Estado ou de qualquer outra classe política, do que o absolutismo legal estatal puro e simples. No entanto, o argumento religioso é cada vez mais suprimido pela supremacia ou pela "conquista" do Estado Laico, como se este governo tivesse alguma virtude excelsa de preservar a dita "tolerância" contra o absurdo de todas as religiões. "Tolerância", que no final, cala a boca dos religiosos, suprime a liberdade de consciência da fé cristã do povo e quer, em nome disso, impor uma nova forma de consenso ideológico, que é uma perversão completa da consciência. A autoridade moral do Estado laico se torna apenas um disfarce para uma nova teocracia estatal e sua religião civil. . .um Estado sem Deus, acaba se tornando o próprio Deus. Ou melhor, tudo é permitido! E o ateísmo se torna dogma de fé!

A "razão" cultuada sobre a égide da ciência e do Estado laico está nos levando ao aborto legal, à pedofilia sacralizada, à ditadura politicamente correta, à destruição da consciência moral, enfim, toda sorte de aberrações, que nem a religião, com os mais pesados fardos do fanatismo, da intolerância e das inquisições, jamais sonhou fazer. A militância atéia justifica a eutanásia e o aborto pelos mesmos argumentos que qualquer ideólogo racista ou nazista se utilizaria: a negação intrínseca da dignidade dos mais fracos, pela pecha de que eles não possuem a necessidade de existirem. Aborto é controle de natalidade dos indesejáveis: crianças pobres não devem viver, porque serão rejeitadas pelos pais. Débeis mentais, nascituros defeituosos, problemáticos, todos devem ser eliminados porque são infelizes criaturas da natureza, e, portanto, matá-los é um ato de caridade. A eutanásia não poupa nem os idosos: como eles são apenas cargas pesadas e inúteis, devem ser eliminados como gente descartável. O Estado laico eleva o casamento gay nas alturas, enquanto deseja criminalizar sua rejeição, mandando prender padres e pastores.

A religião pode ser censurada, atacada, insultada, mas a recíproca não é verdadeira para os religiosos: eles devem trair suas razões de consciência pela autoridade suprema do bezerro de ouro estatal. Eles devem fechar os olhos aos nascituros inocentes, aos débeis mentais, aos velhinhos que serão legalmente assassinados, sob a proteção do Estado laico esclarecido! Isto porque, em alguns países, como a Holanda, os religiosos estarão proibidos de defender suas crianças contra a pedofilia militante, que se politiza e cada vez mais consegue "direitos" de abusar dos menores. Se o Estado laico esmaga a consciência individual, pela força do aparato coercitivo e pela dispersão das multidões, por outro lado, ele incentiva um individualismo perverso, que é a própria destruição da consciência individual. Mima os cidadãos com exigências infantis, enquanto policia seu vizinho e o joga um contra outro. Um individualismo, que na prática, é a atomização do individuo e o enfraquecimento de seus laços culturais e morais comuns.

A censura moral e intelectual dos valores religiosos nos debates políticos é, em suma, uma grotesca desonestidade intelectual, chegando ao cume da perversidade. Primeiro, porque os valores da religião são comuns a qualquer cultura humana e política, que implicam a exaltação das virtudes e o direcionamento da conduta ética, no sentido da transcendência. A censura prévia da religião tem a ver com o profundo temor e ódio que os materialistas militantes nutrem pelas razões religiosas. Até porque nenhuma "razão" laicizante conseguiu substituir o argumento da fé religiosa. Os argumentos do cristianismo contrários ao aborto, à eutanásia e outros demais caprichos são tão devastadores, tão visivelmente superiores, que o seu debate público resultaria numa força profunda na consciência do povo e a completa anulação retórica das militâncias materialistas. Muitos iriam descobrir que por trás de uma sociedade política são necessários valores que são sagrados para a preservação da dignidade do indivíduo. Que os valores da transcendência religiosa na alma do povo são, por princípio, um argumento fortíssimo contra a autoridade absoluta do Estado Laico e das sandices de seus engenheiros sociais. Todavia, os apologistas do ateísmo militante, da legalização do aborto, da eutanásia e do homossexualismo não querem expor suas conjecturas a um debate franco de idéias. Querem sim impor goela abaixo os seus valores, a revelia da religião e das crenças morais do povo, através da manipulação da opinião pública e do uso indevido das leis do Estado.

Muitos acusarão neste artigo um sentimento de fanatismo religioso ou de desprezo pela liberdade religiosa. Pelo contrário, a liberdade sempre deve existir como um dos valores supremos do ser humano, em razão de preservar a paz de sua consciência e mesmo de suas escolhas morais. Contudo, a liberdade de pensamento não isenta a obrigação do próprio Estado de se sujeitar a valores morais e éticos que são, por sua definição, absolutos, precisamente por preservarem a dignidade humana. E o fato de a religião apregoar justamente isso a respalda de autoridade moral para ser escutada nos debates públicos, inclusive, para influenciar nos assuntos do Estado! Outros indagarão os perigos da religião no Estado laico, como se o governo se isentasse das influencias religiosas. Todavia, o cristianismo medieval, ao menos, dava um sentido moral na esfera política: os principados tinham deveres, dentro de causas e valores revelados pelos céus. E embora o homem medieval não fosse um exemplo de candura, tampouco há de se espelhar na autoridade do Estado laico, quando o que nos veio foi o genocídio! (Autor: Cavaleiro Conde)

Sábado, Junho 30, 2007

Uma pergunta-teste

Amigos e irmãos,


Segue uma transcrição que fiz de um trecho (pp. 112 e 113) do livro A Soberania Banida de R. K. Mc Gregor Wright. Trata-se de uma obra de refutação em grande parte a Clark Pinnock e o seu Open Theism - Teísmo Aberto - que é também muito associado à Teologia Relacional. Recomendo.


Uma pergunta-teste

Encontrei calvinistas sérios pela primeira vez quando estava no London Bible College durante 1965-1966. Um Domingo pela manhã eu voltava de uma prática de evangelismo no Highgate Baptist Chapel quando ouvi uma discussão que se desenrolava no porão do prédio dos estudantes da escola que eu freqüentava. Sentei-me para ouvir. Era um debate concentrado entre estudantes arminianos e um estudante veterano, Michael Buss, que mais tarde veio a ser pastor da Igreja Batista Lansdown, em Portsmouth. De repente, ele voltou-se pra mim e perguntou:

- O que você pensa sobre esse assunto, Wright? Você é um calvinista. Diga a esta pessoas o que vem primeiro: a regeneração ou o exercício da fé salvadora?

Eu refleti alguns instantes sobre a pergunta, não percebendo para onde a discussão tinha ido. Eu disse:

- Bem, eu suponho que a ordem seria que, quando o evangelho nos é apresentado, e Deus nos dá luz suficiente para entender o que ele significa, nós colocamos nossa confiança em Jesus, e, então, Deus nos dá a vida eterna. Assim, eu penso que a fé salvadora vem antes e a regeneração assim como o novo nascimento, vem imediatamente depois.

Michael, disse:

- Eu entendo. O que você quer dizer então é que, quando você ouviu o evangelho, contrariamente a todos os seus hábitos passados, revertendo a tendência de sua personalidade caída, morta em delitos e pecados, em inimizade contra Deus, com o entendimento obscurecido e pensando ser o evangelho uma tolice, você ainda foi capaz de reconstruir sua total consciência espiritual ao redor de um novo centro, de forma a perceber que o evangelho é a sua melhor aposta e, assim, você abraçou Cristo como seu salvador. Como conseqüência disso Deus recompensou você por seu esforço maravilhoso nesta realização espiritual, dando-lhe a vida eterna. É isso que você quis dizer com sua resposta?

Totalmente pego de surpresa, eu gaguejei que não, que não era realmente aquilo que eu havia pretendido dizer.

Michael simplesmente respondeu:

- Bem, isso foi exatamente o que você disse. Pense a respeito disso.

Em 1985 eu encontrei Michael Buss novamente e recordei aquela conversa de 20 anos atrás. Ele nem mesmo se lembrava daqueles eventos daquela tarde. Mas eu sim. Aquele foi o dia em que eu percebi que não entendi o calvinismo, e aquela situação provocou em mim um trabalho sério a fim de me tornar um pensador mais consistente. Deus havia predestinado desde a eternidade que eu deveria voltar aquela tarde para a escola, no exato momento de ouvir algo que alguém, que havia pensando profundamente sobre o assunto, e justamente no ponto exato do meu próprio pensamento sobre a questão para que eu a seguisse seriamente.

WRIGHT, R. K. Mc Gregor. A soberania banida – redenção para a cultura pós-moderna. Ed. Cultura Cristã, 1ª ed, 1998. 112-113p. 267pp.

Quinta-feira, Junho 14, 2007

O censor utópico

Irmãos e amigos,

(O artigo que escrevo é baseado no texto a seguir do sociólogo D. Magnoli)

Como cristãos e como pais, temos de tomar uma postura frente à interferência do Estado na família. Temo que isso possa futuramente redundar em coisa pior pois, como diz a Bíblia, "um abismo chama outro abismo". O País não é um grande família com um Papai, e sim, feito de várias famílias, com seus pais, diferentes um dos outros e o governo é feito de cidadãos co-iguais e não de membros de família onde existe papéis bem definidos.

Seria o caso de, em breve, a internet também ser classificada e assim, infinitamente?

Ora, é fato que o cristianismo, especialmente o reformado, zela tanto pela moral como pela liberdade. Porém, os meios para se manifestar contrariamente ao que se passa na mídia não deveria ser via censura préviae sim, por outros meios, como manifestações e/ou organizações para tal efeito.

A censura prévia é diferente da censura feita pela crítica dos cidadãos. Acredito que é por esse viés que devemos andar. Acredito que uma sociedade se auto-regulará com uma consciência cristã maior e para isso é necessário que o Evangelho seja pregado e os valores cristãos, especialmente o da salvação em Cristo, sejam cada vez mais abertamente anunciados.

Além do mais, como cristãos, cremos que cada ser humano tem sua consciência. Vi D. Magnoli falando que quando caiu o regime comunista houve uma enxurrada de baixarias nas TVs do Leste Europeu. Por quê? Segundo a avaliação dele, é porque os cidadãos libertos da cortina de ferro não tinha aprendido a selecionar o que vê e assim conviver com a liberdade de imprensa. Creio que esse é ponto.

Por fim, falando nisso, como cristãos, não é fato que a família e cada indivíduo dever ser valorizada na sua individualidade e responsabilidade?

Você, como pai, iria concordar que o Estado dissesse o que é certo ou errado para seus filhos? O Estado existe para administrar e não para doutrinar pessoas.


Transcrevo abaixo o texto do sociólogo D. Magnoli que trata exatamente dessa questão.

Obs.: Apenas uma ressalva: não creio no livre-arbítrio, mas sim na livre-agência, o que é um tanto diferente. Porém a idéia do autor quando usa o termo "livre-arbítrio" é bíblica se o que ele quis dizer é o uso da consciência individual. Sobre essa questão do livre-arbítrio, leia o artigo anterior.


O Censor Utópico

por Demétrio Magnoli

As Meninas Superpoderosas não receberão o selo de Programa Especialmente Recomendado para Crianças e Adolescentes. É que Tarcízio Ildefonso, diretor-adjunto do Departamento de Justiça e Classificação Indicativa (Dejus), não aprova a ambientação, em shopping center, da confraternização das heróicas meninas: "Esse gesto é segregacionista, já que nem todos podem fazer compra em shopping, além de ser um estímulo ao consumismo." Ildefonso gostaria que elas celebrassem suas vitórias "no Palácio da Justiça". Eu, que não nutro a mesma admiração fetichista pelos templos do Estado, faria as meninas confraternizarem em praça pública. Minhas preferências são irrelevantes. As dele valem ouro: todos os dias, compulsoriamente, ocuparão as telas das redes nacionais de televisão.

Se o Supremo permitir, Ildefonso e seus colegas se tornarão "meninos superpoderosos". As suas preferências serão convertidas em selos bilionários ou em supressões irremediáveis porque, por meio da classificação horária obrigatória, eles têm os meios de destroçar financeiramente produtos culturais moldados para os anunciantes do horário nobre. Os censores da nova era não cortam cenas ou proíbem filmes: eles põem a mídia eletrônica de joelhos diante do poder de turno.

Na ditadura militar, os chefes da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) falavam em nome da moral e dos costumes. Os novos censores renegam seus ancestrais e falam em nome da democracia. Eles acusam os críticos de prestarem serviço às empresas de mídia, como se o princípio do lucro não pudesse conviver harmoniosamente com o da censura. Eles citam Estados democráticos que fazem classificação indicativa, omitindo ritualmente a circunstância decisiva: lá fora, não há exame prévio de programas e quem classifica são órgãos de auto-regulamentação; aqui, o governo passa a dispor do poder discricionário de controle prévio e classificação. O nome disso é censura.

O Dejus não é o DCDP. Aos olhos dos censores orgulhosos de outrora, um beijo era um beijo, sexo era sexo e um crânio partido era o que era. Os censores dissimulados de agora são seres mais complexos. Reverentemente, eles obedecem às regras de um manual parido por "especialistas" que ensina a inserir cada coisa no seu "contexto". Há beijos virtuosos e beijos ominosos. Existe sexo do bem e pura sacanagem. O tiro e o crânio partido são interpretados à luz dos imperativos de justiça social. O valor de cada gesto, palavra e cena depende de seus significados políticos e culturais.

O Manual de Classificação Indicativa é um anacronismo intelectual digno de regimes como os de Stalin, Salazar ou Mussolini. Enrolando-se no manto dos direitos humanos e prometendo um "diálogo pedagógico com a sociedade", o documento atualiza a meta fascista e comunista de fabricação do Homem Novo. Numa passagem memorável, ele define "comportamentos repreensíveis" como sendo "contextos/cenas/diálogos que valorizam ou estimulam irresponsabilidade, egoísmo, desonestidade, desrespeito para com os demais, manipulação, preconceito, ameaça, fuga de conflitos - sem que, ao mesmo tempo, haja uma clara mensagem de repúdio a essas práticas". A bíblia do censor dissimulado propicia, ao sabor do arbítrio do Dejus, a mais vasta latitude de interpretação e interferência sobre produtos culturais. De Shakespeare ao folhetim, tudo pode ser expurgado para a solidão da madrugada. O antigo DCDP pretendia cercear, amordaçar, calar, proibir. O novo Dejus almeja falar, moldar, doutrinar, ensinar.

O Dejus é Lula em toda a sua glória. Há anos, o presidente reitera, em incontáveis pronunciamentos, o paralelo entre a nação e a família. Sob essa lógica, ele se apresenta como pai, que trata o povo, "especialmente os mais pobres", como seus próprios filhos, exercita a paciência, mas não renuncia à firmeza, traça limites e sofre ao dizer "não". A metáfora da nação-família, uma pedra angular de autoritarismos de diversas matrizes, é o alicerce ideológico que sustenta o edifício da nova censura.

Lula não inventou a classificação indicativa, um fruto da articulação entre ONGs e intelectuais petistas que pregam o "controle social da mídia". Mas o ambiente político no qual floresce o dirigismo cultural está contaminado pela idéia de que a missão do Estado é educar a sociedade. Não se pode confiar na auto-regulamentação da mídia, na crítica pública da programação de tevê ou no discernimento das famílias: a consciência nacional deve ser depositada aos cuidados do censor utópico incrustado no Ministério da Justiça.

A visão paternalista acalentada pelo Planalto oferece pretextos para variadas aventuras dirigistas. Meses atrás, os Ministérios da Saúde e da Educação produziram uma cartilha de educação sexual destinada a alunos de escolas públicas de 13 a 19 anos que ensina a colocar preservativo e os convida a relatar suas "ficadas", expressão na qual se inclui "beijar, namorar e transar". Posta diante da objeção de que a cartilha circunda a mediação dos professores e ignora a vontade das famílias interessadas em evitar a iniciação sexual precoce dos adolescentes, Mariângela Simões, diretora do Programa DST/Aids e responsável pelo material, retrucou que "o foco é o jovem, não a censura que possa vir de um pai". O texto da cartilha - com trechos como "sexo não é só penetração. Seduza, beije, cheire, experimente!" - talvez não passasse pelo crivo do Dejus, mas as duas iniciativas compartilham a fé na virtude do Estado e o desprezo pelo livre-arbítrio dos cidadãos.

O ridículo está à solta. Na era da internet de massas, o Ministério da Justiça alega a urgência de proteger as crianças dos perigos da tevê nos horários em que os pais estão ausentes, enquanto admira, indiferente, o espetáculo da humilhação cotidiana dos jovens das favelas pela ação do crime organizado e da polícia corrompida. Há método no absurdo: os doutrinários que ignoram o direito à segurança são os mesmos que usurpam o direito à liberdade.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP - E-mail: magnoli@ajato.com.br

Domingo, Junho 03, 2007

Erasmo, Lutero e o "Livre Arbítrio"

Martinho Lutero, ao venerável D. Erasmo de Rotterdam, com os votos de Graça e Paz em Cristo”. É assim que Lutero introduz a sua obra De Servo Arbítrio, A Escravio da Vontade, resposta à famosa Diatribe sobre o Livre Arbítrio, que Erasmo publicou em 1524.

Desidério Erasmo (c. 1466-1536) e Martinho Lutero (1483-1546) permanecem como dois nomes precursores do espírito moderno, e entre eles há algumas semelhanças. Esses dois gigantes intelectuais europeus protagonizaram no contexto explosivo, destinado a dissolver a unidade do mundo medieval. Havendo passado pela Ordem agostiniana, ambos vieram a rejeitar métodos hermenêuticos da Igreja Romana, bem como muitas de suas superstições e crendices. Ambos ofereceram grande contribuição à disseminação do texto bíblico em sua época. Detentores de enorme capacidade para o debate acadêmico, erudito, e partilhando de talento literário, ambos escreveram acerca do “livre arbítrio”, embora com uma diferença diametral: Erasmo, o humanista, defendendo; e Lutero, o reformador, condenando. Isto marcou uma ruptura definitiva entre os dois homens, que, anteriormente, ofereciam-se mútuo encorajamento. Desde o debate de Leipzig (1519), os caminhos de ambos vinham conduzindo a rumos diferentes.

Publicado inicialmente em 1525, A Escravidão da Vontade1 é um primor de composição polêmica. Nesta obra transparecem com bastante evidência a personalidade e a franqueza dos sentimentos de Lutero. A força lógica e persuasiva de seus argumentos revelam a mente treinada na disciplina da escolástica medieval. O estilo polêmico de Lutero era o da época em que viveu e traduz o vapor existente na atmosfera acadêmica de então. Na obra original (tanto mais do que no sumário publicado em português), há ironias, asperezas, ad hominems e alusões indiretas.

Não obstante, o leitor deve comparar o texto luterano muito mais com o bisturi de um resoluto cirurgião do que com a pena de um clínico em seu receituário. Na estima de Lutero, o tratado erasmiano era uma obra da carne. Contendo uma anamnese mal feita, partia de um princípio falso e oferecia um placebo para uma ferida mortal. Lutero repudia o Diatribe de Erasmo expondo a doutrina bíblica do pecado original. Sem um diagnóstico preciso acerca da enfermidade humana, não há como discernir de maneira apropriada o valor das boas-novas do evangelho da graça de Cristo. Em sua réplica, Lutero procede a um honesto e rigoroso exame das Escrituras Sagradas, evidentemente preterido por Erasmo.

Foi com a compreensão do puro evangelho que se abriu para Lutero a noção do cativeiro radical da vontade. Sem nenhuma dúvida, na doutrina da depravação do homem situa-se a pedra angular da Reforma. No coração da teologia de Lutero e da doutrina da justificação, está a sua compreensão da depravação original e da pecaminosidade do homem – que ele conheceu muito bem, mesmo como um monge asceta na Ordem agostiniana. O reformador está muito bem qualificado para tratar do assunto da impiedade e da depravação.

O que é a verdadeira liberdade? Neste caso, vê-se também que o discurso sobre a condição servil da vontade não visa a outra coisa, se não ao discurso correto sobre a liberdade. Para Lutero, a livre vontade é um termo divino, e não cabe a ninguém, a não ser unicamente à majestade divina. Conceder ao ser humano tal atributo significaria nada menos do que atribuir-lhe a própria divindade, usurpando a glória do Criador. Lutero, assim, compreende que a pergunta pela liberdade da vontade no fundo é a pergunta pelo poder da vontade. Por isso mesmo, a livre vontade é predicado de Deus. É poder essencialmente específico do próprio Deus.

Lutero considerava A Escravidão da Vontade a sua melhor e mais útil publicação. O valor deste tratado é inestimável realmente, e poucos livros há que sejam tão necessários no presente momento. O atual ensino de muitos que se denominam “protestantes” está em maior acordo com os dogmas papistas, ou com as idéias de Erasmo, do que com os princípios dos Reformadores; analisado criticamente, tal ensino está em maior harmonia com os Cânones e Decretos do Concílio de Trento do que com as Confissões de Fé Protestantes e Reformadas.

A Editora FIEL está lançando uma nova edição de "Nascido Escravo". Trata-se de uma versão condensada e adaptada, facilitando o acesso ao clássico texto luterano. Oramos sinceramente que o Senhor abençoe o leitor e que este, abraçando com fé o Eleito de Deus, Jesus Cristo, batalhe por manter sua Causa e sua Verdade nestes dias em que muito tem sido perdido. Que o livro seja um meio de edificação e fortalecimento para todos quantos desejam ser instruídos pelos oráculos de Deus!

(Leia também a seguinte postagem anterior: Martinho Lutero: A Teologia da Cruz em contraste com a Teologia da Glória).

Fonte: Blog do Pr Gilson Santos


Segunda-feira, Maio 14, 2007

Ainda sobre o calvinismo

Irmãos e amigos,

O texto a seguir é de autoria de Gustavo Nagel e foi publicado também na Confraria Calvinista. Subscrevo-o integralmente.

Sugiro a leitura de um artigo de minha autoria que serve para complementar melhor a minha postura e é, na verdade, um recado a alguns calvinistas um tanto exaltados. Leiam-no aqui.


"Eu sei que entre meus poucos leitores há alguns que são católicos, alguns outros que são evangelicais — aqui, pelo menos, todo e qualquer protestante conservador que não seja reformado — e talvez bem poucos que sejam, como eu, calvinistas.

Se já não disse algo parecido, digo agora: saibam todos vocês que respeito as opiniões diversas às minhas. Isso não significa, claro, que para isso eu finja que as diferenças — não poucas vezes, enormes diferenças — não existam ou que eu ache, no fundo, que cada um tem a sua opinião e ninguém está mais certo que ninguém. Pelo contrário, eu só creio no que creio porque penso que minha crença é correta e a alheia, conseqüentemente, equivocada ou menos correta que a minha. Gostaria muito, inclusive, que cada amigo deste blog pensasse o mesmo. Por outro lado, não há escândalo algum de minha parte em reconhecer o que temos em comum. Sendo assim, eu acho muito saudável que um católico passe por aqui e pense: "Ele está errado nisso e naquilo" ao mesmo tempo em que diga: "Bom, nessa questão em particular, apesar de estar equivocado em muitas outras, ele está certo", porque é justamente essa minha relação com os autores católicos que leio.

Aliás, é impossível falar de autor católico sem lembrar de G. K. Chesterton. E mais: é impossível falar em discordâncias sem recordar suas palavras: antigamente, no fim da Idade Média, dizia ele, os homens costumavam se matar por pensarem ou crerem diferente; hoje, na decadência do período revolucionário, continuava, o fenômeno é justamente o oposto: os homens simplesmente acham que as diferenças já não importam mais. É a droga do relativismo e do irracionalismo dos ditos "pós-modernos". Eu pretendo fugir tanto de um erro quanto do outro.

Mas não é esse o meu ponto. De fato, existem quinhentos mil motivos para que vocês, católicos e evangelicais, detestem o calvinismo; e são precisamente esses mesmos motivos que tornam alguém um ardoroso calvinista. O que quero dizer, na verdade, é que ninguém precisa — como fez o Paulo Brabo, por exemplo —, inventar mentiras a respeito dele a fim de torná-lo indesejável. Basta expô-lo; com fidelidade; e isso será suficiente.

O que é, afinal, o calvinismo? — alguém perguntaria. E quais são suas fontes primárias? Quanto à primeira pergunta, diz B. B. Warfield que

calvinismo é um termo ambíguo à medida que é empregado correntemente em dois ou mais sentidos intimamente relacionados, passando de um a outro com facilidade, variando apenas na conotação. Algumas vezes ele designa meramente o ensino individual de João Calvino. Algumas outras vezes designa, mais amplamente, o sistema doutrinal confessado pelas Igrejas Protestantes conhecidas historicamente, em distinção às Igrejas Luteranas, como "Igrejas Reformadas"; mais comumente chamadas de "Igrejas Calvinistas" por causa da grande exposição acadêmica de sua fé na época da Reforma, talvez mais influente que em todas as outras épocas, feita por João Calvino. Outras vezes ele designa, de forma ainda mais ampla, o corpo de concepções teológicas, éticas, filosóficas, sociais e políticas que, sob influência de João Calvino, chegou a dominar as terras Protestantes da era pós-reforma, tendo deixado uma marca permanente não só na mentalidade, mas na vida dos homens, na ordem social das pessoas civilizadas e até mesmo na organização política dos estados. [The Works of Benjamin B. Warfield, Volume V, p. 353.]

Sobre as fontes, digo eu: caso alguém tenha real interesse em saber o que é o famigerado calvinismo, mesmo que para refutá-lo, primeiro como ensino individual de Calvino, leia as Institutas da Religião Cristã — escrita de 1536 a 1559 — e os inúmeros comentários bíblicos deixados por ele — o comentário à Epístola aos Romanos, principalmente; depois, se alguém pretende compreender o sentido mais amplo apontado por Warfield, o sentido relacionado ao padrão doutrinário, mesmo que para contrariá-lo, aproxime-se das diversas confissões de fé produzidas pelas tais "Igrejas Reformadas." Em português, é fácil encontrar a Confissão de Fé de Westminster, que é o padrão doutrinal das Igrejas Presbiterianas em geral, a Confissão de Fé Londrina de 1689, sua adaptação batista e a Confissão de Savoy, sua adaptação congregacional. Procure também pela Confissão Belga e pelos Cânones de Dort, padrão das igrejas reformadas holandesas, e pelas Confissões Helvéticas, documentos das igrejas reformadas de fala alemã na Suíça.

Digo isso porque para um calvinista, logicamente, o calvinismo é sinônimo de cristianismo; isso é, o calvinista, o cristão reformado, enxergará o calvinismo, sempre, como o modo mais consistente de cristianismo que ele conhece. É claro, tão claro quanto qualquer coisa que seja indubitavelmente clara, que um católico atribuirá essa consistência ao catolicismo. E é claro que, fazendo isso, o calvinismo, aos seus olhos, não passará de uma redução de um sistema de verdades maior, mais abrangente e mais consistente. Em outras palavras, o calvinismo, para ele, não passará de uma perniciosa heresia. O arminianismo, por sua vez, não tem a mesma prerrogativa quando critica o calvinismo, pois ele mesmo nasce no contexto reformado, mais especificamete entre os calvinistas holandeses.

Seria, então, muito conveniente que as partes em questão — católicos, calvinistas, evangelicais e/ou arminianos — tivessem, antes de tudo, real entendimento de seus próprios credos; e que depois, para o bem do diálogo, se inteirassem minimamente do pensamento alheio. Fazendo isso, não teríamos mais críticas do tipo: "para os calvinistas, Deus é o autor do mal"; "para os calvinistas, um cristão não precisa orar"; "eles acham que não precisam evangelizar" etc. Essas críticas são, no mínimo, fruto de desinformação; e, no máximo, da desonestidade mais pura. Cada uma delas é, letra por letra, refutada pelas fontes mecionadas logo acima.

Aqui, retorno ao ponto inicial. No Brasil, de um modo geral, ignora-se grandemente o que seja o calvinismo, mas ainda assim não lhe faltam críticas. Eu tenho certeza que a posição calvinista, em muitos aspectos, é bem pouco simpática. E que muitos, além disso, continuariam com reservas a ela mesmo depois de conhecê-la. Mas o mínimo que os amigos precisam fazer antes de odiá-la é certificarem-se de que estão odiando a coisa certa. Disse no último texto que comumente se fala de um calvinismo jamais defendido por qualquer teólogo calvinista. E é exatamente isso o que eu lamento. O pior não é se deparar com quem discorde da compreensão reformada de cristianismo, mas esbarrar com alguém que não se preocupa nem um pouco em entender o que pretende discordar."



Sábado, Maio 12, 2007

Palavras antigas, verdades atuais

"O calendário do papa só declara santos a pessoas mortas, mas as Escrituras requerem a santidade da parte dos vivos." Jenkyns

"A igreja se acomodou à nossa cultura ao inventar um tipo de cristianismo onde o tomar a cruz tornou-se opcional, ou até mesmo, impróprio." McArthur

"Milhares de crentes estão substituindo a piedade pelo zelo; a mortificação pela liberalidade; e a vida cristã pessoal por uma religião social." John Angell James

"Alguns podem querer dizer que a morte de Cristo foi por todos, para que eles possam ser incluídos, embora não queiram mudar a maneira ímpia como estão vivendo." John Owen

"As igrejas agora pensam que sua responsabilidade é entreter as pessoas." Spurgeon

"Uma crença sincera na soberania de Deus na salvação findaria muitas das tolices que hoje acontecem nas igrejas." McArthur

"Os homens questionam a veracidade do Cristianismo porque detestam a prática do mesmo." Robert South

"Oh! Maravilhosa cruz! Por seu intermédio, Aquele que nela sofreu veio a ser o não Senhor de nosso destino (porque já o era), mas o Senhor de nossos corações." A.W. Pink

Fonte: Textos da Reforma




A centralidade da cruz

por
James Montgomery Boyce

"Se a morte de Cristo na cruz é o verdadeiro significado de sua encarnação, não existe evangelho sem a cruz. O nascimento de Cristo, por si mesmo, não é a essência do evangelho. Mesmo a ressurreição, embora seja importante no plano geral da salvação, não é o cerne do evangelho. As boas-novas não consistem apenas no fato de que Deus se tornou homem, ou de que Ele falou com o propósito de revelar-nos o caminho da vida, ou de que a morte, o grande inimigo, foi vencida. As boas-novas estão no fato de que Deus lidou com nosso pecado (do que a ressurreição é uma prova); que Jesus sofreu o castigo como nosso Representante, de modo que nunca mais tenhamos de sofrê-lo; e que, por isso mesmo, todos os que crêem podem antegozar o céu. Gloriar-se na Pessoa e nos ensinos de Cristo somente é possível para aqueles que entram em um novo relacionamento com Deus, por meio da fé em Jesus como seu Substituto. A ressurreição não é apenas uma vitória sobre a morte, mas também uma prova de que a expiação foi satisfatória aos olhos do Pai (Rm 4.25) e de que a morte, o resultado do pecado, foi abolida por causa desta satisfação.

Qualquer evangelho que proclama somente a vinda de Cristo ao mundo, significando a encarnação sem a expiação, é um falso evangelho. Qualquer evangelho que proclama o amor de Deus sem ressaltar que seu amor O levou a pagar, na pessoa de seu Filho, na cruz, o preço final pelos nossos pecados, é um falso evangelho. O verdadeiro evangelho é aquele que fala sobre o “único Mediador” (1 Tm 2.5-6), que ofereceu a Si mesmo por nós.

E, assim como não pode haver um evangelho que não apresenta a expiação como o motivo para a encarnação, assim também sem a expiação não pode haver vida cristã. Sem a expiação, o conceito de encarnação facilmente se degenera num tipo de deificação do homem, levando-o a arrogância e auto-exaltação. E além disso, com a expiação (ou sacrifício) como a verdadeira mensagem da vida de Cristo e, por conseguinte, também da vida do cristão, quer homem ou mulher, esta deverá conduzi-lo à humildade e ao auto-sacrifício em favor das reais necessidades de outros. A vida cristã não demonstra indiferença àqueles que estão famintos e doentes ou têm qualquer outra dificuldade. A vida cristã não consiste em contentar-nos com as coisas que temos, ou com um viver da classe média, desfrutando de uma grande casa, carros novos, roupas finas e boas férias, ou com uma boa formação educacional, ou com a riqueza espiritual de boas igrejas, Bíblias, ensino correto das Escrituras, amigos ou uma comunidade cristã. Pelo contrário, a vida cristã envolve a conscientização de que outros carecem de tais coisas; portanto, precisamos sacrificar nossos próprios interesses, para nos identificarmos com eles, comunicando-lhes cada vez mais a abundância que desfrutamos...Viveremos inteiramente para Cristo somente quando estivermos dispostos a empobrecer, se necessário, para que outros sejam ajudados."

Fonte: Revista Fé Para Hoje, nº 8, 2000, pg 9

Extraído do site Monergismo.

Recomendo a leitura dos artigos da revista Fé Para Hoje, pois são como um oásis em meio ao raso e seco mundo evangélico atual. Acesse, gratuitamente, todas a edições aqui





Quarta-feira, Maio 09, 2007

A bagagem de Bento, Beckwith e as contradições

Caros leitores,

Saiu o novo artigo no blog O Tempora, O Mores a respeito da vinda do Papa e suas consequências positivas e negativas e da "conversão" de Beckwith ex-presidente da Sociedade Teológica Evangélica americana ao catolicismo e a relação disso tudo com a frouxidão dos protestantes em relação aos seus pontos de fé fundamentais.

Vale a pena a leitura!

Cliquem no endereço abaixo:

http://tempora-mores.blogspot.com



Segunda-feira, Maio 07, 2007

Não se confunda Estado Laico com Estado Ateu

Caros leitores,


O texto a seguir trata de uma questão de interesse aos cristãos, principalmente, do nosso País: Estado Laico x Liberdade Religiosa. Acredito que os conceitos como os que são apresentados no artigo abaixo sejam uma boa maneira de se defender a liberdade religiosa, especialmente a cristã conservadora. Pelo visto, temos de andar não somente com a Bíblia debaixo do braço, mas também com a nossa Constituição Federal.

Não seria uma boa iniciativa estudarmos as nossas leis numa Escola Dominical ou nos seminários? O apóstolo Paulo já nos deu um bom exemplo disso quando apelou às leis romanas em favor de sua liberdade. O cristianismo da Reforma Protestante não pôs somente a Bíblia na mão do povo, mas o acesso à cidadania. Um exemplo a ser seguido no Brasil, pois ainda há tempo para isto.

Boa leitura!


Por Klauber Cristofen Pires

"É preciso separar bem duas coisas: há o Estado ateu, e há o Estado laico. As duas instituições não se confundem. O primeiro declara que Deus não existe, e proíbe a existência das religiões, ou, no máximo, as aceita como manifestações folclóricas. É o que aconteceu na ex- União Soviética e vige na China e em outros países, salvo engano, todos comunistas.

O segundo trata-se apenas de um arranjo político, encontrado como forma de encontrar a paz entre cidadãos de diferentes religiões. Como bem ensinado por Ludwig von Mises, em Ação Humana, as guerras religiosas são as mais drásticas, porque não admitem negociação; como tudo se trata de dogma, ou o plano de uma determinada religião se impõe sobre os outros, ou sucumbe ante eles. Não há saída.

No Estado Laico, o que não se permite é que se utilize o Estado para beneficiar cidadãos em detrimento de outros, com base em preceitos religiosos. Os acontecimentos que têm sido noticiados na Internet, sobre pessoas que são proibidas de se manifestar quanto às suas crenças em locais mantidos pelo Estado, principalmente em países como EUA, Inglaterra e Alemanha, não configuram a conseqüência da aplicação plena deste princípio político, mas justamente de sua desvirtuação.

Neste sentido, o Brasil está dando lição aos seus países amigos. Em nossa sociedade, o Estado é laico, mas não proíbe, por exemplo, que um cidadão faça as suas orações. Pelo contrário, a Constituição Federal oferece várias garantias, dentre as quais citamos os incisos VI, VII, VIII e IX, todos do Artigo 5º, aqui transcritos “in verbis”:

Art. 5º, VI: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e seuas liturgias;

Art. 5º, VII: é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;

Art. 5º, VIII: ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se da obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

Art. 5º, IX: é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

Como servidor público federal, posso dar meu testemunho pessoal de que em meu local de trabalho ninguém é proibido de fazer suas orações ou manifestar seu credo. Pelo contrário, em quase todas as mesas dos meus colegas de trabalho encontram-se Bíblias, crucifixos, folhas-calendário e imagens de santos. Nas datas comemorativas, os servidores realizam novenas, peregrinações e autos de Natal. Nos dias de sábado, em que há concurso público, é garantido àqueles que o guardam disporem do direito de fazer a prova depois do período de abstenção das atividades mundanas (Eles são confinados em uma sala especial, vigiada pelos fiscais de prova).
Note-se, que em todos estes casos, não se trata de uma manifestação do Estado Laico, mas de seus servidores ou cidadãos, que são pessoas humanas. O Estado é que é laico: o cidadão ou o servidor, não! Portanto, o que um Estado laico não pode fazer, é privilegiar o culto a uma religião específica, ou os cidadãos crentes de uma religião específica, em detrimento dos demais. Nenhum servidor público pode, por exemplo, tratar melhor um católico do que um evangélico ou ateu. Nenhum hospital público pode alegar abster-se de atender a um paciente, em razão de sua fé. Isto é sim, o que significa o Estado laico, e isto é muito bom.

Compreensível é a preocupação de uma corrente de pensadores conservadores, no tocante ao temor de haver um propositado abandono dos valores morais quando o Estado repele qualquer manifestação religiosa em suas estruturas físicas. Por outro lado, é mais que conhecida a atuação política de ramos da Igreja Católica e de outras igrejas protestantes, o que desautoriza plenamente confundir ateus com comunistas.

Não obstante, olhando pela via inversa, devem os conservadores entender que seus dogmas não podem ser garantidos via força do Estado. O motivo pelo qual os conservadores apóiam-se no estado para a garantia de seus dogmas religiosos é o mesmo pelo qual Ludwig von Mises, em seu último discurso, explicou o motivo pelo qual as pessoas apóiam tanto o socialismo, cujos excertos aqui não podem ser desprezados:

“As pessoas aceitam o socialismo do ponto de vista de suas próprias idéias. Elas estão inteiramente convencidas que todas as outras pessoas deveriam ser forçadas a adaptarem-se a este sistema, o qual certamente elas consideram como o melhor e o único sistema possível.”
...
“Se nós assumirmos que este sistema terá também a força para determinar tudo o que um indivíduo faz com respeito ao que são comumente chamados de “problemas religiosos”, nós deveremos assumir também que tal sistema de socialismo deveria adotar um sistema religioso específico. Isto faria com que todos os outros sistemas religiosos passassem a se tornar sistemas de minorias perseguidas.”
...
“Considerando-se as condições socialistas nós nunca pensamos que este sistema socialista poderia forçar as pessoas a fazer coisas que elas consideram as piores possíveis.”

Do exposto, compreende-se o quão seria conveniente ao conservador garantir os valores morais de nossa sociedade por meio do estado. Todavia, ele precisa ter em mente de que ele não gostará nada da idéia se por acaso subir ao poder o representante de um grupo rival (ou oposto), que venha a lhe impor uma nova visão de mundo, ou de Deus.

Mas, e como fica a nossa grande questão, ou seja, como resguardaremos os nossos valores morais? Novamente, recorro ao velhinho judeu-austríaco: os valores morais não se transmitem geneticamente. A cada nova geração, precisamos transmitir todo o nosso legado para os novos seres humanos que nascem. Estas novas pessoas receberão as informações, as processarão e formarão suas próprias convicções (ainda que permaneçam as mesmas dos seus antepassados). Daí ser inapropriada a convicção de que podemos criar um sistema social baseado puramente em tradição, ou de que os indivíduos não possam criar as suas próprias opiniões.

Se há uma tradição a ser mantida (mas a cada geração, confirmada), ela o será pela própria sociedade, isto é, por cada um de seus cidadãos, que serão os eternos vigilantes dos atos do Estado, e, ao contrário do que sustentam, por sua vez, alguns ateus, no plano do debate nas casas legislativas, esta tradição pode ser apresentada como argumento, sob pena de cerceamento da liberdade de expressão. Isto porque, o que às vezes se aparenta irracional, guarda uma racionalidade apreendida por milênios. Convém lembrar a ambos, finalmente, que deverão ter em mente de que leis devem ser aplicadas a todos os cidadãos, por igual."

Fonte: http://libertatum.blogspot.com/2007/04/no-se-confunda-estado-laico-com-estado.html

Quinta-feira, Maio 03, 2007

Aborto: a ética do caçador

Amigos e irmãos,

Um texto do Presb. Rubem Martins Amorese* muito pertinente, mais do que nunca, para os dias de hoje. Leitura obrigatória!


"Às vezes não consigo entender certos conceitos de justiça e lealdade que surgem e se consolidam em setores de nossa sociedade. Digo setores porque há grupos muito específicos ligados a tipos específicos de preocupações. Vou dar um exemplo.
Tive um amigo que gostava muito de caçar. Desses desportistas fanáticos, que compram várias armas, assinam revistas, freqüentam clubes etc. Não sei como o assunto surgiu, mas, de repente, estávamos falando sobre a ética envolvida na caça, e eu perguntava:
— Que ética existe na caça por esporte?
— A gente tem regras — respondia ele. — O animal sempre tem que ter uma chance de escapar.
— Mas como, regras? — indaguei. — Você está com um trabuco. E o passarinho, vai lhe enfrentar com o quê?
— Não, ele não vai me enfrentar; ele pode fugir — respondeu o caçador.
— E esse assobio especial? Para que serve?
— Eu uso o assobio para chamar o pato. Quando ele atende, mando chumbo.
Fiquei muito irritado com o conceito de ética daquele rapaz. Acabei estragando a conversa, com a seguinte sugestão:
— Por que você não entra numa floresta, de noite, com dez facas nas mãos, e sai à caça de um tigre? Ele com dez unhas e você com dez facas. Sem assobios, trinados, nem nada. Não lhe parece mais justo?
E ele ficou me olhando com aquele olhar que diz: você está “apelando”.

De Volta ao Útero

Uma outra área onde a ética é bem específica, e bem consolidada dentro de um grupo, é a área do aborto. As pessoas favoráveis ao aborto formam um grupo sólido e grande; gente estudiosa e militante, politicamente falando. Gostam de se reunir, como os caçadores, e de falar e planejar atividades.
Aí está outro tema cuja ética não consigo entender. É uma espécie de campo minado, porque envolve muita emoção, e, em muitos casos, a própria vida da mãe. Por isso, quero lhe sugerir uma ótica específica; bíblica, em sua essência. A ótica do oprimido, da vítima. Coloque-se comigo no lugar da caça, digo, do nenezinho que vai nascer. Vamos visitar as grandes discussões sobre este tema, olhando a situação do lado do nenê. Você é o bebê. Vamos?

Primeira semana:
o óvulo fecundado entra no útero da sua mãe. Uma nova vida começa a se desenvolver. Você já é um ser vivo! Não se sabe muito a respeito desse estágio de vida. Muitos teólogos acreditam que você já tem o espírito dado por Deus. Já é uma alminha vivente. Portanto, já é alvo da ternura paternal de Deus, e pode, já, começar a receber o amor de sua mãe e de seu pai, se eles pressentirem sua presença. Você pode, sem saber, estar sendo festejado com dança e com choro. Com champanhe ou com silêncio misterioso.


Segunda semana:
Com apenas quatorze dias, já está umbilicalmente ligado à sua mãe e começa a receber alimento materno. Você está sendo nutrido por ela. Isso é muito forte para os dois. Uma relação vital, de profundas implicações psicológicas e emocionais se estabelece. Sua mãe, inclusive, pode estar experimentando sentimentos, sensações e uma consciência que de alguma forma se relacionam com o ato divino da criação. Imagine! Um entezinho sendo formado dentro dela! Pode ser que ela não esteja gostando disso. Mas ainda assim, a experiência é fortíssima e inesquecível.


Da primeira à quarta semana
aparecem os seus olhos, sua coluna vertebral, seu cérebro, seus pulmões, o estômago, o fígado e os rins. Neste período, seu coraçãozinho começa a bater! Normalmente sua mãe ainda não sabe de você. Distraída, ela espera pela menstruação mensal. Mas se ela sabe, e vai ao médico, ele poderá sentir, por meio de instrumentos supersensíveis, o seu pulsar, e dizer se está tudo bem com você. Ao final deste período, sua cabeça já está em formação; o crânio já está completo; a espinha dorsal também, e os braços e pernas já começam a aparecer, ainda sem forma definida. Você já tem jeito de gente.


Quinta semana:
o seu tórax e abdômen estão formados separadamente. Seus olhos já possuem retina e visão. Os ouvidos já estão formados. Agora você já tem os braços e pernas completos. Se sua mãe ainda não sabia, agora ela já começa a desconfiar que está grávida. A menstruação já atrasou demais. Aparecem os enjôos, as tonteiras, e você já ocupa o seu lugarzinho na sua barriga. Você já tem uns 35 dias de vida.


Da sexta à oitava semana,
todos os seus órgãos aparecem. A cabeça se completa. O rosto, a boca e a língua são formados. O cérebro está completo. O que será que você anda pensando? Que grande mistério. Você já responde a cócegas. Você tem todos os dedos das mãos e dos pés — até mesmo impressões digitais, que serão as mesmas de quando você tiver 80 anos.


Da décima à décima-primeira semana,
todos os sistemas do seu corpo são colocados em funcionamento. Os nervos e os músculos estão sincronizados. Os braços e as pernas movem-se. As unhas estão aparecendo. Você já possui um peso considerável.


Três meses:
Você andou rápido. Já está prontinho, formado. Agora, você só tem que crescer. Mas o que você não sabe (será que não sabe? Será que sua proximidade da mãe não lhe permite “sentir” o que se passa no interior de sua mãe?) é que sua mãe e o médico, ou, quem sabe, uma parteira do bairro, já estão combinando como matá-lo. Discutem se será:

  • pelo método de sucção, no qual você sairá aos pedacinhos;
  • pelo método da curetagem, que o cortará em pedaços dentro da mãe, para depois ser tirado;
  • pelo método cirúrgico, no qual você é retirado inteiro, para depois morrer, ou
  • pelo envenenamento salino, quando uma solução salina é injetada na bolsa amniótica, e você morre cauterizado.
Pode ser por algum outro método. Todo dia alguém inventa um jeito novo.
E eu fico me perguntando se a ética dessas decisões não são mais ou menos parecidas com a do caçador, que diz que dá chance de escapar à caça.

Balanço

Você sabia que este tipo de caçada:
  • mata mais pessoas que o câncer;
  • mata mais pessoas que todas as guerras até hoje;
  • mata mais que o trânsito;
  • mata entre 4 e 12 milhões de crianças por ano1, dos quais 400 mil resultam em morte da mãe?
  • faz do Brasil o campeão mundial de abortos?

Caçador ou Predador?


Talvez seja leal da nossa parte informá-lo sobre os dramas e motivos de sua mãe, ao querer matá-lo. Aliás, ela diria que não está matando ninguém. Há uma diferença, entre abortar e matar. Abortar é, simplesmente, uma forma de se livrar de uma gravidez incômoda ou indesejada, ou de alto risco. O uso da expressão “matar” — argumentaria ela — é uma radicalização daqueles que são contra, por motivos religiosos, políticos, moralistas, filosóficos etc.

Então, eu pergunto a você, leitorzinho, que está aí dentro da barriga da mamãe: que nome você daria? Também acha que tudo se resume num problema de semântica? De nomenclatura? De palavreado? Com a palavra, o feto: você.

É de justiça, também, lembrar que nunca essas decisões são fáceis e indolores para sua mãe. Ela também enfrenta uma situação de grande angústia e sofrimento. Na grande maioria dos casos, carregará essa culpa pelo resto da vida. Talvez por isso, queira lhe dar essas explicações.

O primeiro motivo de sua mãe, pode ser o de que não tenha condições de criá-lo. Não tem condições econômicas. Uma mãe pobre, já no décimo filho. Você é o goleiro do time. E você vai morrer por isso. Qualquer dia desses, uma “amiga” da sua mãe virá visitá-la, com umas agulhas de costura bem compridas e outras ferramentas. ..

Pode ser que ela não tenha condições de criá-lo, também, porque engravidou jovem demais. Transou sem preservativo, ou, não se sabe porque, mesmo com ele, engravidou. Dez por cento das mulheres que engravidam, estavam “protegidas” por anticoncepcional2. De acordo com o IBGE, 1 milhão de garotas3 engravidam por ano no Brasil.

Neste caso, você veio a estar nesta situação porque sua mãe é uma pessoa liberal, sem essas “encanações” dos mais velhos. Acha que essas histórias de virgindade, castidade, são coisas de matusalém. E seu pai concorda (para cada aborto no mundo, há um homem co-responsável). Sexo tem que ser livre. Contanto que haja amor. E assim entrou para a estatística das mais espertas e desencanadas adolescentes do ano. Competindo apenas com mais 999.999 colegas brasileiras. Um exército de garotas, acompanhadas por um exército de garotos, que acham que sabem muito bem o que estão fazendo. Por causa disto, você vai morrer. Infelizmente, ela não vai querer parar de brincar agora, tão cedo.” É muita responsabilidade para assumir agora: preciso viver, estudar, passear etc.”.

O segundo motivo que sua mãe poderá lhe apresentar, para ver se você a perdoa pelo que vai fazer, é que você, se chegasse a nascer, seria odiado. Você é resultado de um estupro. Neste caso, inclusive, a lei concorda com sua morte. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: há casos em que o nascimento é pior que o aborto; e um deles, é ter que carregar, a vida toda, o peso de ser um peso. Ser rejeitado e não-amado desde a concepção. Você não teria um parto — seria simplesmente expelido. Se nascesse, você não teria o colinho da mamãe, nem seu leite, nem ouviria sua voz cantando cantigas de dormir. Seria visto como um monstro. Resultado de uma monstruosidade sofrida por sua mãe.

Você, que a estas alturas já tem o cérebro formado, pode estar se perguntando: mas por que ela tem que me rejeitar? Não poderia tentar me amar? Ao menos como um inimigo, conforme prescrevem as Escrituras? Ela não poderia, em resposta ao que sofreu, me dar a vida? Gostar de mim?

Meu irmãozinho, se você chegasse a nascer, compreenderia como é complicado o coração humano. Esse tipo de “volta por cima” que você está sugerindo só acontece por milagre. Algumas vezes acontece. Se sua mãe tiver aprendido alguma coisa sobre adoção, a adoção de Deus, o amor paternal dele, seu sacrifício na cruz, então, talvez você tenha alguma chance. Mas não espere muito por isso.

O terceiro motivo é bem mais sério (algum aqui não é?): sua mãe — e o médico — tem que escolher entre você e ela. Gravidez de risco. Se você nascer, ela pode morrer. E a probabilidade de que morram os dois é grande. Uma variante desse motivo é que você está sendo mal formado por problemas com sua mãe ou com a gravidez. Vai nascer com muitos problemas, se o pior não acontecer. E isso tem que ser resolvido agora, enquanto você está bem pequenino. A lei garante à sua mãe o direito de correr o risco de ir com você até o fim. Há casos em que crianças no seu estado nasceram saudáveis, e a mãe sobreviveu. Mas o que você sugere? Vamos tirá-lo? Acha que recusar-se a “cooperar” é muito egoísmo de sua parte?


Adeus, irmãozinho


Irmãozinho, agora que você já sabe porque vai morrer, o que acha da idéia? Que acha dos motivos apresentados por seus pais?

Certamente, estará se perguntando: — Será que eu também seria assim, se chegasse a nascer? Será que cresceria e teria essa cabeça doida? Esses valores tão confusos? Será que eu também tentaria convencer meu filhinho do injustificável? Será que eu também jogaria sobre ele todo o peso de uma sociedade que brinca com a vida — e com a morte? Será que valeria a pena nascer numa sociedade assim?

O fato, irmãozinho, é que essas coisas chegaram ao ponto em que estão, porque temos nos perdido nos caminhos da vida. Originalmente, Deus não nos fez assim. Mas isso não é de hoje. No Brasil, em particular, onde você foi concebido, somos campeões mundiais em muitas coisas. Se você nascesse, entenderia o que é ser um “tetra”. Mas saberia também que somos o povo mais esperto do mundo.

Para não fugir do nosso assunto — seu destino —, somos campeões mundiais da sensualidade. Nossas mulatas e “loirudas” fazem sucesso no mundo inteiro, mostrando esse seu “dom”. Nossos meios de comunicação de massa alardeiam a todos os ventos nossa irreverência e sensualidade como sedimentada identidade nacional. Estilo de vida, entende? Somos “quentes”, somos livres, somos ótimos. Venha para o Brasil. Aqui, tudo pode acontecer (abaixo do Equador e debaixo do cobertor). Quer vender um livro? Uma geladeira? Um amortecedor de carro? Coloca uma mulher bem sensual, insinuante, dessas bem brasileiras, que só dizem “sim” (incrível, que tantas mulheres aceitem ser vistas e tratadas assim, em plena luta por igualdade). Quer fazer um cinema encher? Diga que o filme é sensual e irreverente. Quer ser um cara simpático e legal? Diga que vive sob o signo descontraído e fálico do “Casseta e Planeta”. Todos vão dar um risinho “cult” e conivente. Você é impossível, mesmo.

Temos tido muita certeza sobre como conduzir nossas relações amorosas e sexuais; temos tido muita certeza sobre o que é “careta” e o que não é; estamos super-seguros sobre “o que é bom para mim e os outros que se danem”; sabemos tudo sobre o uso do nosso corpo — sem essa de promiscuidade; sabemos tudo sobre família, casamento, profissão, lazer, uso de dinheiro, bebidas etc. Sempre orientados e tutelados por uma mídia absolutamente sem limites, sem horários, sem vergonha, sem caráter e sem patriotismo.

Mas a quê nos tem levado toda essa displicente arrogância nacional? Bem, é uma longa história, irmãozinho; um dia a gente conversa sobre isso. Mas uma coisa podemos dizer. Este ano, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove irmãozinhos seus vão ser assassinados por suas próprias mães. E o milionésimo, infelizmente, será você.


Notas

1 A incrível imprecisão dos números está relacionada ao fato de que são quase impossíveis as estatísticas a esse respeito. A grande maioria dos abortos é feita escondida, longe dos hospitais.

2 O Relatório de 1983 do Departamento de Saúde de Minnesota, EUA, diz que 48,8% das garotas entre 15 e 17 anos que tiveram abortos, sabiam sobre métodos anticoncepcionais e os usavam (irregularmente) . Outros 9,7% estavam usando anticoncepcionais quando engravidaram.

3 Entre 14 e 17 anos de idade."

*Rubem Martins Amorese é presbítero da Igreja Presbiteriana do Planalto e Consultor Legislativo do Senando Federal. Extraído do livro Excelentíssimos Senhores. Editora Ultimato.

Terça-feira, Maio 01, 2007

Dia do Trabalho; breve reflexão acerca da ética do trabalho na Cosmovisão Reformada

Caros leitores,


Transcrevo um elucidativo texto a respeito do Dia do Trabalho extraído do arquivo do blog Pr Gilson Santos. Trata-se de uma exposição histórica e, principalmente, uma abordagem teológica sob o ponto de vista reformado/calvinista. Boa leitura!


"Nosso bom Deus, Pai e Salvador, uma vez que a Ti Te aprouve ordenar que trabalhemos para podermos atender à nossa indigência, por Tua graça, de tal modo abençoa nosso labor que Tua bênção se estenda até nós, sem o que ninguém poderá prosperar no bem, e que tal favor nos sirva para testemunho de Tua bondade e assistência, mercê da qual reconheçamos o paternal cuidado que tens de nós. Ademais, Senhor, que Te apraza assistir-nos por Teu Santo Espírito, para que possamos exercer fielmente nosso múnus e vocação sem qualquer dolo nem engano, pelo contrário, que tenhamos antes o propósito de seguir Tua injunção que satisfazer o desejo de enriquecer-nos; que se, não obstante, a Ti Te apraz prosperar nosso labor, que também nos dês a disposição de proporcionar assistência àqueles que estão na indigência, segundo os recursos que nos houveres dado, retendo-nos em toda humildade, a fim de que nos não elevemos acima daqueles que não hajam recebido tal abundância de Tua dadivosidade. Ou, se nos queres tratar em maior pobreza e indigência do que desejaria nossa carne, que Te apraza fazer-nos a graça de acrescentar fé em Tuas promessas, para fazer-nos seguros de que nos haverás de, por Tua bondade, prover-nos sempre o sustento, de sorte que não caiamos na desconfiança; antes, pelo contrário, esperemos pacientemente que nos cumules não somente de Tuas graças temporais, mas também de Tuas graças espirituais, para que tenhamos sempre mais amplo motivo e ocasião de render-Te graças e descansar inteiramente em Tua só bondade. Ouve-nos, Pai de misericórdia, por Jesus Cristo, Teu Filho, nosso Senhor.

(João Calvino, Oração para antes do trabalho, 1562)[1]


Na maioria dos países industrializados, o 1º de maio é o Dia do Trabalho. Comemorada desde o final do século XIX, a data é uma homenagem aos oito líderes trabalhistas norte-americanos que morreram enforcados em Chicago (EUA), em 1886. Eles foram presos e julgados sumariamente por dirigirem manifestações que tiveram início justamente no dia 1º de maio daquele ano.

Na maioria dos países industrializados, o 1º de maio é o Dia do Trabalho. Comemorada desde o final do século XIX, a data é uma homenagem aos oito líderes trabalhistas norte-americanos que morreram enforcados em Chicago (EUA), em 1886. Eles foram presos e julgados sumariamente por dirigirem manifestações que tiveram início justamente no dia 1º de maio daquele ano.

Baixos salários e jornadas de trabalho que se estendiam até 17 horas diárias eram comuns nas indústrias da Europa e dos Estados Unidos no final do século XVIII e durante o século XIX. Férias, descanso semanal e aposentadoria não existiam. Para se protegerem em momentos difíceis, os trabalhadores inventavam vários tipos de organização – como as caixas de auxílio mútuo, precursoras dos primeiros sindicatos. Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos, também era um dos grandes centros sindicais. No dia 1º de maio, os trabalhadores realizaram uma grande manifestação – foi a última do período em que não houve violenta repressão policial. Nos dias seguintes, toda ação dos operários foi duramente reprimida pela polícia, com mortos, feridos e muitos presos. As conseqüências chocaram o mundo: depois de um julgamento sumário, vários líderes foram condenados à prisão perpétua e oito deles, à morte na forca. Aos poucos, porém, vários Estados norte-americanos começaram a estabelecer jornadas de trabalho menores, de dez e até de oito horas.

No Brasil, a data é comemorada desde 1895 e virou feriado nacional em setembro de 1925 por um decreto do presidente Artur Bernardes. Com Getúlio Vargas – que governou o Brasil como ditador por 15 anos e como presidente eleito por mais quatro – o 1º de maio ganhou status de "dia oficial" do trabalho. Era nessa data que o governante anunciava as principais leis e iniciativas que atendiam as reivindicações dos trabalhadores, como a instituição e, depois, o reajuste anual do salário mínimo ou a redução de jornada de trabalho para oito horas. Vargas criou o Ministério do Trabalho, promoveu uma política de atrelamento dos sindicatos ao Estado, regulamentou o trabalho da mulher e do menor, promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), garantindo o direito a férias e aposentadoria.[2] Desde 2003, um Projeto de Lei na Câmara dos Deputados propõe a modificação do “Dia do Trabalho” para “Dia dos Trabalhadores”.[3]

Podemos nos valer deste dia para ensejar uma breve reflexão acerca da ética do trabalho na Cosmovisão Reformada.

O Calvinismo e o Trabalho

Um dos maiores legados do Calvinismo à cultura ocidental é uma nova atitude em relação ao trabalho e, sobretudo, ao trabalho manual. O trabalho, longe de ser meramente um meio inevitável e um tanto tedioso de se obter as necessidades básicas da existência, é das mais louváveis atividades humanas. Ser “chamado” por Deus não implica em se afastar do mundo, mas exige engajamento crítico em cada esfera da vida secular. O trabalho é entendido, assim, como uma atividade profundamente espiritual, um labor socialmente benéfico. A transformação do status do trabalho de uma atividade desagradável e degradante a ser evitada, se possível, para um meio honrado e glorioso de afirmar a Deus e ao mundo que ele criou, é, pois, uma das mais importantes contribuições do Calvinismo à cultura ocidental.

Atente-se, porém, que no pensamento de João Calvino “o que conta acima de tudo na vida do homem não é trabalhar, nem ganhar, nem preocupar-se de todas aquelas coisas aparentemente primordiais que dizem respeito ao ganha-pão, mas confiar em Deus, neste Deus ativo que se contempla no dia do descanso. Que não é um Deus ocioso, mas um Deus que quer expressamente associar os homens à Sua obra, com a condição, todavia, de que só o Seu serviço os preocupe e não o benefício que possam daí tirar”, ressalta André Biéler.[4] E se a Bíblia nos ensina que o trabalho não pode jamais ser, para o homem, um fim em si, pessoal ou social, uma justificação da existência, nem por isso deixa de ser um dos mais importantes aspectos de sua vocação, de sua obediência e de sua fidelidade. O trabalho não deve ser havido como um fim em si. Deve estar subordinado à vida eterna, que é o alvo da existência, e não ser um obstáculo à vida espiritual. No pensamento calvinista, na medida em que o trabalho toma o lugar de Deus, absorve toda a existência e não mais se reporta a seu fim, está ele votado ao fracasso. A secularização do trabalho é um pecado tão grave quanto sua divinização. Na medida, ao contrário, em que o trabalho é relacionado com Deus, na fé e na obediência, é ele acompanhado de bênçãos.

Pode ser, na verdade, que essa nova atitude calvinista em relação ao trabalho tenha se constituído em um dos elementos que conduziram ao desenvolvimento do Capitalismo. Leland Ryken salienta, não obstante, que o rótulo “ética puritana do trabalho” é usado hoje em dia para cobrir toda uma classe de males correntes: a síndrome do vício de trabalhar, trabalho escravizador, competitividade, culto do sucesso, materialismo e o culto da pessoa auto-realizada.[5] Nossa cultura tem visto o trabalho primordialmente como o caminho para as riquezas e posses. Esta ética secular tem sido atribuída aos Puritanos e ao seu precursor Calvino. Tem sido aceito como um axioma que a ética Puritana baseia-se na riqueza como a recompensa máxima pelo trabalho e a prosperidade como um sinal de santidade. Entretanto, o pesquisador aplicado em vão procurará pela consubstanciação da afirmativa de que o puritanismo e o calvinismo mais propriamente consideravam o trabalho como o meio pelo qual as pessoas conquistam seu próprio sucesso e riqueza.

A divisão de trabalho em categoria de sagrado e secular tornara-se uma característica principal do catolicismo romano medieval. E essa dicotomia sagrado-secular foi exatamente o que os Puritanos rejeitaram como ponto de partida para sua teoria do trabalho. Foi Martinho Lutero, mais do que qualquer outro, quem derrubou a noção de que clérigos, monges e freiras engajavam-se em trabalho mais santo do que a dona de casa e o comerciante. Calvino rapidamente acrescentou seu peso ao argumento, e os Puritanos foram unânimes em seguir a direção de Lutero e Calvino. Para os Puritanos, toda a vida era de Deus. O objetivo Puritano era servir a Deus, não simplesmente no trabalho no mundo, mas através do trabalho. Seu objetivo era integrar seu trabalho diário com sua devoção religiosa a Deus.

Há um ponto, salienta Ryken, em que a moderna interpretação da ética puritana está correta: que os puritanos escarneciam do ócio e louvavam a diligência. Porém, a finalidade do trabalho, no ideário puritano, era “obedecer a Deus e fazer o bem aos outros”, compartilhando da convicção de que as recompensas do trabalho eram primariamente espirituais e morais. A ética Puritana do trabalho fazia do trabalho uma responsabilidade individual, bem como uma obrigação social. A crítica puritana da ociosidade equiparava-se a seu louvor à diligência no trabalho, nem tanto por ser ele inerentemente virtuoso, mas por ser o meio designado por Deus para prover as necessidades humanas. A convicção puritana era que o trabalho é uma das ordenanças da Criação e, portanto, uma necessidade para o bem-estar humano. O ideal puritano era situar-se moderadamente entre trabalhar com zelo, por um lado, sem, contudo, dar sua própria alma pelo trabalho. E ao manterem sua visão dos fins morais e espirituais do trabalho, os Puritanos extraíram a conclusão lógica de que estes mesmos objetivos deveriam governar a escolha pessoal de uma vocação.

“Ética Protestante” e “Espírito do Capitalismo”

Como bem identifica Alister McGrath, na tese de Max Weber “a demonstrável afinidade entre o Calvinismo e o Capitalismo funciona como uma premissa, em vez de uma conclusão”. É algo que necessita ser explicado, em vez de demonstrado. Há pouca dúvida de que a elite econômica da Europa, no início do século XVII – tanto nos países católicos quanto nos protestantes – fosse calvinista.

Parecia que o Calvinismo isoladamente era capaz de movimentar a indústria e as finanças e de injetar um impulso vital na vida comercial das cidades e nações. A sugestão de que o Calvinismo de alguma forma causou – ainda que remotamente – o desenvolvimento de condições sob as quais o Capitalismo pudesse florescer é obviamente bastante plausível. Porém, é a explicação religiosa dessa tendência que levanta algumas dificuldades para o teólogo. Deliberadamente falando, é difícil para um teólogo cristão, familiarizado com o pensamento religioso do período, discernir a ligação íntima entre a espiritualidade calvinista e o “espírito do Calvinismo moderno” que Weber detecta.[6]

Um dos problemas nesta vasta coleção de ensaios que tratam da relação do Calvinismo com o Capitalismo é que, de um modo geral, seus autores estão limitados em instrumentos teológicos – e até histórico-teológicos – necessários para avaliar as implicações de certas posturas e doutrinas teológicas. O próprio Max Weber é um exemplo nesse problema. Alguns destes autores freqüentemente têm compreendido mal a doutrina da predestinação e vocação em Calvino e seus sucessores, como se fosse uma doutrina nova em si mesma, como se a idéia da eleição divina fosse uma inovação teológica ignorada antes da Reforma – e, mesmo então, aceita somente entre uma parcela do Protestantismo. Desse equívoco básico, têm surgido tentativas grosseiras de analisar psicologicamente o conceito calvinista de predestinação como um caminho para o Capitalismo. Os desdobramentos do Capitalismo holandês, por exemplo, revelam que foi justamente a Amsterdã arminiana que gerou a notável riqueza das Províncias Unidas, enquanto o ducado calvinista permaneceu economicamente ultrapassado. Portanto, podemos sugerir que um melhor lastreamento histórico-teológico teria tido efeito salutar sobre a sociologia e a historiografia econômica moderna. Talvez os teólogos possam humildemente recomendar aos sociólogos e economistas um exame mais detalhado e isento da noção de “ética do trabalho” calvinista. Um espírito humilde para análises interdisciplinares nesta área poderá ser não apenas sinal de sabedoria e prudência, mas de rigor acadêmico. Uma crítica teológica do debate sobre a relação entre a graça divina e a atitude moral humana, e da conseqüente introdução de uma “teologia da aliança”, poderia ser de grande auxílio para clarear alguns pontos, os quais a sociologia moderna simplesmente tem assentado como premissas em seus argumentos.

A primitiva propensão calvinista em relação ao ativismo moral, econômico e político deve ser vista como algo que repousa sobre importantes fundamentos teológicos, que têm sido freqüentemente olvidados em seculares análises do Calvinismo. A imagem caricatural que se tem feito da doutrina calvinista da predestinação, como encorajando um tipo de contemplação passiva, carece de absoluta evidência histórica. Ao contrário, as evidências históricas apontam que seu efeito foi justamente o oposto, e que essa doutrina continha as sementes do ativismo secular. No século XVI, uma postura dinâmica e afirmativa em relação ao trabalho levou os calvinistas à vanguarda do progresso. Porém, no século seguinte, outros grupos protestantes do período, que não partilhavam da ortodoxa doutrina calvinista, estavam incondicionalmente engajados em atividades seculares. E McGrath arremata: “O que pode ter sido singular ao Calvinismo, no século XVI ou no início do século XVII, parece ter se tornado de cunho comum na burguesia do Norte da Europa, por volta de 1650”.[7] E muitos empreendedores “calvinistas” da metade do século XVII estavam, na verdade, longe de serem ortodoxos em suas perspectivas religiosas. A premissa de Weber pressupõe acertadamente o compromisso desses “calvinistas” com a atividade secular, e as ansiedades existenciais que a doutrina da predestinação gerava. Porém, a premissa weberiana olvida que, a despeito de haver restado esse engajamento por parte dos indivíduos, ao mesmo tempo, os seus fundamentos religiosos que, originariamente, causaram seu aparecimento, haviam se evaporado, em sua maioria. As persistentes atitudes seculares não se encontravam mais apoiadas sobre os mesmos fundamentos religiosos.

Uma dificuldade fundamental em relação à tese de Weber está no fato de que esta não consegue construir a ligação específica entre a ética do trabalho, de um lado, e a acumulação e o reinvestimento do capital, de outro; na verdade, não há qualquer conexão específica com a atividade econômica em geral (...). Embora o calvinismo possa ter trazido consigo o imperativo de se assegurar a eleição do indivíduo e ao mundo por intermédio da atividade secular apropriada, a forma específica que essa atividade pudesse assumir era deixada em aberto. A análise histórica sugere que essas formas eram uma questão de contingência histórica, variando de uma época e um contexto histórico para outros.[8]

Se a afirmativa teologia de João Calvino em relação ao mundo tem alguma conexão inevitável com o Capitalismo, talvez possa ser identificada no fato evidente de que o Cristianismo evangélico produz tanto a atividade quanto a frugalidade, um alicerce do Capitalismo. No estilo de vida calvinista, mormente Puritano, é verdade que um mistura de diligência e frugalidade tendia a fazer as pessoas relativamente prósperas, ao menos parte do tempo. É importante, porém, considerar como eles viam sua virtual riqueza. A atitude puritana era de que a riqueza era um bem social, não uma propriedade pessoal – um dom de Deus, não o resultado de esforço humano somente ou um sinal da aprovação de Deus. A maciça pesquisa de fontes primárias revelará que os Puritanos afirmavam que nenhuma correlação direta existe entre riqueza e santidade. Para os Puritanos, "não riquezas, mas fé e sofrimento por causa do evangelho são sinais da eleição", salienta o historiador Richard L. Greaves.[9] E, em sua ética do trabalho, os Puritanos nunca conceberam-no à parte do contexto espiritual e moral no serviço a Deus e ao homem.

Para uma consideração mais ampla da ética calvinista do trabalho, recomendo a leitura do capítulo 5 da obra de André Biéler, o capítulo 11 da obra de Alister McGrath, e o capítulo 2 da obra de Leland Ryken.

Leia também a seguinte postagem anterior:

049 - 04/04/2006 - Que dizer dos Puritanos?

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[1] Orações. OPERA CALVINI, tomo VI, p. 137. In: Biéler, André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. Trad. Luz, Waldyr Carvalho. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 513.

[2] Para maiores informações online, acerca do Primeiro de Maio, acesse:
http://rwor.org/i/graphpage/haymark.htm e
http://www.ofelia.com.br/1maio.htm

[3] Confira, online: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/172584.htm
e sua tramitação em http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=116190

[4] Biéler, op. cit, p. 521.

[5] Ryken, Leland. Santos no Mundo; Os Puritanos como realmente eram. São Paulo: Editora Fiel, 1992, p. 37.

[6] McGrath, Alister. A Vida João Calvino. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 269. McGrath é catedrático de Teologia Histórica na Universidade de Oxford, e tem escrito extensamente sobre a história e o pensamento da Reforma.

[7] Idem, p. 274.

[8] Ibid., p. 275.

[9] Greaves, Richard L. Society and Religion in the Seventeenth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1927, p. 550."




Segunda-feira, Abril 30, 2007

Uma oração puritana

PAI CELESTIAL,

Salva-me completamente do pecado.
Sei que não sou justo por minha própria justiça,
mas almejo e anseio ser semelhante a ti;

Sou teu filho e devo espelhar tua imagem,
Capacita-me a reconhecer minha morte para o pecado;
A estar surdo para os seus apelos, quando ele me tenta.

Livra-me do ataque e do domínio do pecado.
Concede que eu possa andar como Cristo andou,
viver na novidade de sua vida,
a vida de amor, a vida de fé,
a vida de santidade.

Aborreço meu corpo de morte,
sua indolência, inveja, maldade, orgulho.
Perdoa, e extermina tais vícios,
tem misericórdia da minha incredulidade,
do meu coração corrupto e vacilante.

Quando tuas bençãos me sobrevêm, começo a idolatrá-las,
e ponho minha afeição em qualquer objeto querido —
filhos, amigos, riqueza, honra;

Purifica-me deste adultério e concede-me castidade espiritual;
lacra meu coração para tudo que não tu mesmo.
O pecado é meu grande mal;

Que tua vitória sobre ele seja clara à minha consciência,
e visível em minha vida.

Ajuda-me a ser sempre devoto, confiante, obediente, resignado,
confiando em ti como uma criança em seu pai,
a amar a ti com alma, corpo, mente, força,
a amar o meu próximo como a mim mesmo,
a escapar do temperamento pecaminoso, pensamentos críticos,
palavras difamadoras, maldades, descortesias,
instrui minha língua e vela à porta dos meus lábios.

Enche-me diariamente com graça,
para que minha vida seja um mar de água doce.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho
Extraído de: The Valley of Vision:
A Collection of Puritan Prayers & Devotions,
editado por Arthur Bennett, p.92.

Fonte: http://www.monergismo.com/textos/oracao/clamor_libertacao_oracao_puritana.pdf

Quarta-feira, Abril 25, 2007

I Epístola aos Coríntios

"A espiritualidade cristã nos torna mais humanos..." - Pr Augustus Nicodemus


Expondo a primeira epístola aos Coríntios, ontem, na Igreja Protestante Reformada. Abordando a questão das coisas estranhas que ocorrem em muitas igrejas evangélicas da atualidade.

Terça-feira, Abril 24, 2007

Promovido aos céus o "General das Missões" - Pr Waldemiro Tymchak

Amigos leitores,


Republico uma breve biografia extraída do site da Junta de Missões Mundiais de um dos grandes nomes da Convenção Batista Brasileira que foi promovido em sua carreira de combatente da fé evangélica:



O pastor Waldemiro Tymchak tomou posse como então Secretário Geral da Junta de Missões Mundiais no dia 13 de julho de 1979 (na época, a instituição chamava-se Junta de Missões Estrangeiras). Entretanto, o Senhor de Missões já vinha capacitando-o por muitos anos antes a fim de que assumisse a administração da obra missionária dos batistas brasileiros no mundo.

Waldemiro Tymchak nasceu no dia 15 de outubro de 1937, no Paraná. Seu pai, Basílio Tymchak, era um pregador leigo, natural da antiga União Soviética. Sua mãe, D. Teodora Tymchak, nasceu na Bessarrábia (na Romênia). Era uma lutadora, pois teve de sustentar a família após ficar viúva, ainda jovem. O menino Waldemiro recebeu uma positiva influência da sua avó, a quem carinhosamente chamava de “Bába”, palavra que em búlgaro significa “vovó”. Foi com ela, uma mulher piedosa e crente, que ouviu os primeiros sermões em russo, transmitidos pela Rádio HCJB, emissora cristã que transmitia a partir de Quito, no Equador.

Foi com sua avó e com o seu irmão Paulo que o pequeno Waldemiro aprendeu hinos do Cantor Cristão e cânticos infantis. Gostava de ouvir histórias da Bíblia, especialmente aquelas que falavam da segunda vinda de Cristo – um tema sempre presente na vida dos crentes eslavos.
A família Tymchak residiu inicialmente em São José dos Pinhais, tendo se mudado depois para a capital, Curitiba. O garoto Waldemiro Tymchak sempre foi bom aluno, aplicado e disciplinado nos estudos. Aos 12 anos perdeu o pai, mas não a influência e o testemunho de cristão que recebera dele. Basílio Tymchak era líder de uma congregação e um grande evangelista. Seu ministério teve lugar entre o povo eslavo. Por isso, o adolescente Waldemiro orava e cantava em russo fluentemente. Ele foi batizado na Igreja Russa, onde tocava banjo, bandolim e pistão. Na igreja foi líder de adolescentes e jovens.

Quando foi morar em Curitiba, Waldemiro Tymchak tinha 18 anos. Começou a “abrasileirar-se”. Na Primeira Igreja Batista de Curitiba, de onde foi membro, conviveu com grandes líderes batistas, como Walter Kaschel, Harald Schally e Artur Gonçalves. Na época, participou de muitos retiros, congressos e intercâmbios.

Na vida profissional seguiu as orientações do pai quanto a ter uma profissão e tronou-se alfaiate, atividade que exerceu até os 23 anos. “Bába” o acordava às 3 horas da madrugada e ele trabalhava até ao meio-dia. Depois do almoço, ia para a escola. Todo este esforço era necessário porque, sendo o filho mais velho, a responsabilidade pelo sustento da família após a morte do pai recaiu sobre seus ombros. Ele aprendeu a depender muito de Deus.

O jovem Waldemiro Tymchak cursou dois anos de estudos na Universidade Federal do Paraná, mas os interrompeu porque Deus o chamava para o ministério. Saiu da universidade e ingressou no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro. Durante os estudos no seminário, foi sustentado pela Primeira Igreja Batista de Curitiba. Como seminarista, serviu na Igreja Batista do Calvário e na Primeira Igreja Batista de Copacabana, ambas no Rio. Pregava nas favelas do bairro de São Cristóvão e fazia todo tipo de trabalho nas igrejas: cantava no coro (é tenor), pregava ao ar livre, visitava e substituía os pastores no púlpito.

Após concluir o curso de Bacharel em Teologia, o pastor Waldemiro Tymchak viajou para a Inglaterra, para fazer um curso de especialização em Novo Testamento no conceituado Spurgeon’s College, de Londres, onde ganhara uma bolsa. Durante o período do curso, conheceu outros países e também líderes denominacionais estrangeiros. Foi nesta época que visitou a Rússia e, profundamente impressionado com a realidade religiosa, política e social do país de seu pai, escreveu uma série de artigos intitulada “Eu chorei na Rússia”, publicada na época no Jornal Batista.

Em 1971, o pastor Tymchak retornou ao Brasil, indo trabalhar com a Congregação Batista em Bom Retiro, Curitiba. Três anos e meio depois foi para São Paulo, a fim de liderar a Igreja Batista Boas Novas, em substituição ao pastor Carlos Grigorowich, que encerrava um ministério de 43 anos à frente daquela igreja. Era uma típica igreja russa, com uma rígida disciplina, mas também uma igreja missionária e com uma grande membresia jovem.

Naquele mesmo ano, na Assembléia da CBB realizada em Campos, RJ, o pastor Waldemiro conheceu a jovem Acidália, natural da Bahia, com quem casou-se no dia 20 de janeiro de 1973, no templo da Igreja Batista Sião, em Salvador. Desta união nasceram os filhos Nelson e Thaís.

A família Tymchak servia ao Senhor na Igreja Batista Boas Novas quando o pastor José dos Reis Pereira, presidente da JMM, comunicou ao pastor Waldemiro a decisão da Junta de Missões Mundiais de convidá-lo para ocupar o cargo de Secretário Geral. Desde que assumiu as funções, no dia 13 de junho de 1979, a JMM ampliou grandemente o quadro de missionários e o número de campos onde os batistas brasileiros fazem missões.
Os quase 28 anos do Pastor Waldemiro Tymchak como Secretário Geral da JMM representam um período de grandes realizações. A obra missionária deu um salto significativo nessas quase três décadas. Hoje, a Junta de Missões Mundiais está presente em 63 campos, em 62 países, com um contingente de 598 missionários (em 1979, eram 56 missionários, em 11 campos).

Nesse período, os batistas brasileiros galgaram vitórias expressivas na evangelização do mundo, alcançando países fechados para o Evangelho, como Índia, Japão, Palestina, Líbano, Cuba, China, Iraque, Líbano, Sudão e outros. Das 15 nações que formavam a União Soviética, como Ucrânia e a Federação Russa, apenas uma (o Quirguistão) ainda não foi alcançada pela JMM. Nos últimos anos a prioridade têm sido os povos não-alcançados, especialmente os que estão na Janela 10/40 e no Leste Europeu.

Atualmente, a Junta de Missões Mundiais concentra mais de 50% da sua força missionária entre eles.
Estas três décadas também foram de mudanças ideológicas, quando a JMM passou a realizar a obra missionária com um novo paradigma, deixando de ser etnocêntrica (considerando nossa cultura superior a dos outros povos) e trabalhando mais com os missionários do próprio país. Esta estratégia tem permitido entrar em lugares proibidos para obreiros estrangeiros, como é o caso de Cuba, onde tem 128 Missionários da Terra (autóctones). Com esta categoria de missionários, a evangelização torna-se mais dinâmica. Eles são treinados e supervisionados pelos missionários brasileiros (Efetivos).

Atendendo as necessidades dos campos, a Junta criou novas categorias de missionários. Hoje, é possível ir para o campo por períodos que variam de seis meses a dois anos, como é o caso dos temporários, dos voluntários (que financiam sua própria estada onde atuam) e dos missionários de curto prazo. Os fazedores de tenda (trabalhadores que vão para outros países e sustentam-se com suas atividades profissionais) têm sido verdadeiras testemunhas onde o Evangelho não pode ser pregado na sua forma tradicional.


Nos últimos anos, o esporte ganhou destaque nas estratégias de evangelização. Através do Programa Esportivo Missionário (PEM) dezenas de pessoas ligadas especialmente ao futebol têm aberto portas para o Evangelho onde, de outra amaneira, seria impossível chegar. Este é o caso da China e de muitos países muçulmanos.

Além destes, a Junta passou a enviar equipes formadas por pastores, líderes, médicos e enfermeiros para realizarem campanhas evangelísticas em alguns campos, especialmente na América do Sul e na África, num trabalho de apoio aos missionários efetivos.

Uma das realizações mais importantes implementadas pelo pastor Waldemiro Tymchak foi o Programa de Adoção Missionária. O PAM tem viabilizado a participação direta da igreja na obra missionária ajudando no sustento financeiro e espiritual do obreiro. O Programa de Intercessão Missionária também foi um projeto que deu certo. Hoje, o PIM tem mais de 18.000 pessoas que estão orando pela obra de evangelização mundial.

A JMM criou, nesse período, em parceria com a Junta de Missões Nacionais, o Centro Batista de Treinamento Missionário (CBTM), que preparava de forma eficiente aqueles que seguiriam para os campos. Hoje, o preparo missionário é feito no Centro Integrado de Educação e Missões (CIEM), no Rio de Janeiro, um empreendimento desenvolvido em parceria com a UFMBB e JMN.

De olho nos desafios deste novo século, a Junta de Missões Mundiais está preparando, no IBER/CIEM, grupos para evangelizar povos não-alcançados na África e na América Latina. Trata-se do Projeto Radical,
que faz parte de um novo paradigma da JMM de enviar jovens, por um período de até quatro anos, que viverão de acordo com os povos a quem irão anunciar o Evangelho. Atualmente há os Projetos Radical África (que estão evangelizando no Norte e Noroeste da África), o Luso-Africano (países africanos de língua portuguesa) e o Latino-Americano.

Sempre foi uma preocupação do Pastor Tymchak aproximar a Junta de Missões Mundiais daquelas que realmente fazem missões: as igrejas. Assim, ele dinamizou a comunicação da JMM, criando novos veículos para alcançar o coração dos batistas brasileiros com os clamores da obra missionária.
Sua maior publicação é o Jornal de Missões com uma tiragem bimestral de 160.000 exemplares, em média. O JM substituiu a revista O Campo é o
Mundo (que tinha uma tiragem de 15.000 exemplares) e desde 2004 é publicado em parceria com Missões Nacionais. Também em parceria com a JMN, criou a Revista Missiológica, destinada à reflexão e ao estudo das tendências missionárias mundiais. A JMM editada também o informativo A Colheita é e enviado bimestralmente aos adotantes do PAM.

A JMM também ingressou definitivamente na era da imagem. Ela foi a primeira Junta a apresentar o seu relatório nas Assembléias de CBB em vídeo e criou as Videoconferências Missionárias. Em março de 1999 lançou um projeto arrojado: as Teleconferências Missionárias – um programa transmitido através da TV Executiva da Embratel que levou para todo o Brasil notícias e os desafios missionários mundiais. Além disso, a Junta está ligada à Internet e no ano passado transformou seu site num moderno Portal. Agora basta acessar www.jmm.org.br para ter na tela do computador um amplo canal de informação missionária.
Desde 1982, a Junta de Missões Mundiais trabalha através de planejamentos. Primeiro lançou o Plano Qüinqüenal de Metas; depois veio o Plano Decenal. No ano 2000 encerrou-se o Plano Quadrienal de Metas, lançado em 1996. Nesse mesmo ano, a Junta teve o prazer de concluir as obras de sua nova sede, no Rio de Janeiro, um local dedicado ao avanço da obra missionária mundial.Esses planos foram estratégicos para o avanço da obra missionária. A maioria das metas do Plano Quadrienal foram alcançadas; algumas, inclusive, foram ultrapassadas. Depois veio o Plano Qüinqüenal de Avanço Missionário (2001-2005) e, em 2006, lançou o seu Planejamento Estratégico, com metas até 2009.
Outros progressos podem ser destacados neste período, confirmando o derramamento das bênçãos de Deus sobre a vida e a obra do Pr. Tymchak. Com a finalidade de despertar vocações e envolver as igrejas e os crentes no trabalho de Missões Mundiais, a JMM realiza, desde 1997, os congressos missionários Proclamai. O maior deles foi o Proclamai Nacional, que aconteceu no Rio de Janeiro em 2001, e que reuniu mais de 4 mil pessoas diariamente. Em 2004 foram iniciados os Proclamai Regionais e, em 2005, os Proclamai Setoriais (eventos que reúnem várias associações de igrejas de uma região). Em 2007 serão cinco Proclamai Regionais, um em cada região do Brasil.

Texto produzido pela Gerência de Comunicação e Marketing da JMM com base em informações escritas pelo Pr. Bill Ichter. Atualizado em 06/02/2007 por Luiz Cláudio Marteletto, da Redação.




Outra biografia recomendada é do Pr Antônio de Mattos Galvão, também encontrada no site da JMM sob o título Waldemiro Tymchak: o "Apóstolo de Missões Modernas"




Segunda-feira, Abril 23, 2007

"Meu Caro Ricardo Gondim" - uma resposta* do Pr Augustus Nicodemus

Caros irmãos e amigos,

Vale a pena ler na íntegra a responsta* :


Meu Caro Ricardo Gondim
,


Alguns amigos me disseram que você tinha feito referência a meu artigo “Teologia Relacional – Um Novo Deus no Mercado” publicado no site Teologia Brasileira. A referência – na verdade, várias críticas – foram feitas em um artigo recente seu, “Teologia Relacional – Que Bicho é Esse”.

Fui dar uma olhada, e era verdade mesmo. Ricardo, acho que você escolheu o artigo errado para criticar em defesa de suas idéias já bem conhecidas do povo evangélico brasileiro. Meu artigo é pequeno e irrelevante diante de obras de maior peso prestes a serem lançadas no mercado brasileiro que analisam e expõem as falácias da teologia que você adotou, quer a chame de teísmo aberto ou relacional. Você deveria ter guardado sua artilharia para “Não sei mais em quem tenho crido,” organizado por Douglas Wilson, e “Não Há Outro Deus” de John Frame (a serem lançadas pela Cultura Cristã). E enquanto esses livros não saem, poderia ter atacado “Soberania Banida” do Wright ou o excelente artigo do Dr. Heber Campos, “O teísmo aberto – um ensaio introdutório” na revista Fides Reformata, ou mesmo o livro “O Teísmo Aberto”, de John Piper (Vida). Quando você refutar os argumentos de obras desse calibre, se conseguir, sua teologia poderá ficará mais fortalecida e quem sabe você volte a ter o reconhecimento que costumava ter entre os evangélicos brasileiros, embora eu imagine que você não se interessa, pois já escreveu que não se importa com o impacto de suas palavras.

[...]

Eu poderia responder seu artigo ponto a ponto, a começar pelo estranho fato de que na tentativa de resgatar o caráter relacional de Deus você acaba tornando-o num Deus distante e ausente. Mas, vou concentrar-me apenas nas partes do seu artigo em que sou mencionado.

[...]

Para continuar a leitura, clique aqui

* O texto de Ricardo Gondim ao qual o Pr Augustus Nicodemus responde pode ser lido aqui

Sexta-feira, Abril 13, 2007

Cristo é a nossa páscoa

...porque Cristo, nossa páscoa, já foi sacrificado. ICo 5.7


A verdadeira feliz Páscoa é aquela em que Deus primeiramente se alegrou. Antes de ser meramente uma comemoração na qual se trocam felicitações, esta data rememora a alegria do Criador em remir um povo para si. A verdadeira feliz Páscoa sinaliza Quem é que tem o mundo e aqueles que nele habitam em suas mãos. A verdadeira feliz Páscoa é uma demonstração concreta e simultânea do juízo e da graça divina. A verdadeira feliz Páscoa é mais uma das provas de que o Eterno cumpre o que promete. A verdadeira feliz Páscoa aponta para Aquele que fecha e ninguém abre e que abre e ninguém fecha. Tudo isso por beneplácito de sua vontade e para glória e louvor da sua graça para com os pecadores.

Na história que a Bíblia registra ( Êxodo 12.1-30), ao povo hebreu o SENHOR ordena que aguarde o dia da sua libertação. O sangue de um cordeiro deveria estar nos umbrais das portas das casas para que as famílias ali fossem preservadas do castigo divino. Lembremo-nos de que este povo não era melhor do que outros para tal provisão. Eram feitos da mesma massa dos povos ao seu redor. Eram iguais a nós. Deus agradou-se em abençoá-los. Daqui se aprende que a feliz páscoa - a verdadeira - é inclusive desejar sinceramente bênçãos que desçam do Pai das luzes e mesmo assim não invejar os que recebem tais dons. A verdadeira páscoa é reconhecer, portanto, em primeiro lugar, que não somos merecedores do favor divino.

Porém, os acontecimentos dos quais os filhos de Israel participaram na sua saída do cativeiro egípcio eram apenas sombra e figura de uma Páscoa muito superior. Não foi casualmente que o Filho de Deus derramou seu sangue sobre os umbrais da cruz no dia da Páscoa judaica. Mais uma vez, então, a divina Providência, que rege a História com perfeição, é demonstrada de forma maravilhosa.

Por isso também para que se tenha realmente uma "Feliz Páscoa" sempre é necessário lembrar-se de Jesus, o eterno Salvador. Especialmente deve-se fixar os olhos mais atentamente não só no Autor de nossa fé, mas também no Consumador dela.

Portanto, a verdadeira alegria da páscoa advém da segurança que há no Cordeiro Imaculado providenciado pelo Próprio Deus a nós. Esta é uma segurança incomum surpreendemente que um pecador pode receber. Também incomum foi o nascimento do Salvador. Incomum, da mesma maneira, a sua vida sem pecado e a obediência até sua morte e morte de cruz. Igualmente, na páscoa judaica, seguiram-se alguns acontecimentos incomuns do Velho Testamento: o Mar Vermelho se abriu totalmente e ficou dividido para o povo hebreu passar. Mar este que abriu diante da impossibilidade humana para agir. Então, Deus mesmo abre o mar em favor do seu povo.

O nascimento do Salvador, a vida sem pecado e obediência submissa são impossibilidade humanas. Mas o que é impossível aos homens, para Deus não o é. A Verdadeira feliz páscoa também é crer no Deus do impossível e que até as leis naturais a Ele se submetem e que nem o pecado e a maior rebelião humana podem frustrar os seus caminhos. Acima disto, é confiar que Quem guia nossos passos sabe perfeitamente aonde está nos conduzindo.


Disso tudo podemos retirar algumas lições. Quando o pecador se vê encurralado pelo pecado, por suas limitações, por mais que faça algo, se o mar de impossibilidades não se abrir será consumido cedo ou tarde. É impossível encontrar salvação para sua alma em si mesmo. Mas Deus, por sua graça, rasga o Salvador para que se passe pelo verdadeiro Mar Vermelho até a Terra Prometida. O mar, a água, figuradamente - como Paulo e Pedro registram - representam o batismo no qual se é identificado com o Deus que Salva por meio de Jesus. A verdadeira feliz páscoa é o reconhecimento das limitações, da liberdade dada somente por Deus a da identificação com o Salvador.

Pessoalmente, faço uma imagem da passagem feita pelo povo no Mar após a libertação da Páscoa daquela noite: o Mar Vermelho provavelmente permaneceu aberto até o último escolhido de Deus passar. Não imagino que alguém tenha ficado para trás! Possivelmente havia muitos homens e mulheres sadios – milhares - , mas também dentre eles, certamente, os acompanhavam velhos exaustos, mães com filho de colo, crianças, enfermos, aleijados, cegos, paralíticos, todos os tipos de pecadores – saudáveis ou não - Porém, suponho que o Mar não se fechou antes que o último, sim o último escolhido de Deus passasse. E ele se fechou como que um selo imediatamente quando o último cego pecador pisou na outra margem. Bem, ainda que seja algo possível, é maravilhoso pensar no cuidado do Senhor e na perfeição, e por que não dizer a sincronia dos Seus planos! O tempo de Deus - kronos e kairos - é perfeito!

Da mesma forma, Cristo, pela vontade de Deus, abriu-se para a sua Igreja ser livre e ressuscitou selando para sempre a salvação dos seus escolhidos. A verdadeira feliz páscoa é para todos os tipos de pecadores: homens, mulheres, crianças, velhos, saudáveis, doentes, ricos, pobres... Nenhum sequer que foi liberto em Cristo, seja a condição que for, jamais perderá a vida eterna. A verdadeira feliz páscoa é para os pecadores que confiam que seu passado, presente e futuro estão selados em Cristo. A verdadeira feliz páscoa anuncia que os dons de Deus são irrevogáveis, firmes, eternos, apesar de nossas inconstâncias.


Portanto acheguemo-nos ao Senhor como somos, sabendo que neste caso, é impossível chegar-se a Ele como "homem saudável". Mas, os cansados e sobrecarregados Ele não os desprezará, pois é a esses a quem a felicitação de Feliz Páscoa foi dado pelo próprio Deus. Por isso, encontrar a verdadeira “feliz páscoa” é, antes, ser encontrado por Deus. Assim, pois, diz a Palavra do Senhor:

Todas as coisas me foram entregues, por meu Pai; e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Mateus 11.27 e 28.

Essas "todas as coisas" incluem desde a autoridade do Filho de Deus no céu e na terra até a condução da vida de cada um dos mortais, inclusive na aplicação completa das bênçãos da salvação para seu povo escolhido dentre eles, tais como a regeneração, a fé salvadora, o arrependimento genuíno, a justificação eterna, a santificação diária a e glorificação final dos redimidos como coroa que finalizará a boa obra dAquele que a começou. E assim ainda diz a Escritura:

Mas vós sois dEle, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; 1Co 1.30

Por isso também a verdadeira feliz páscoa é crer seguramente de que se pertence ao Pai da Eternidade. Cristo, a nossa Páscoa, não perdeu ninguém do seu povo na Cruz! E aqui, não se trata de suposição ou imaginação. Muito menos Ele próprio se perdeu na morte. Ele não está mais morto, mas ressuscitou e assim Ele é um testemunho eterno da graça em favor dos pecadores. O Filho de Deus é quem se fez Cordeiro e passagem de libertação por e para inúmeros pecadores. Cristo não nos aponta o caminho, Ele mesmo é o Caminho. Hoje mesmo e para sempre permanecerá sendo o único meio possível para a verdadeira vida.

Que se creia que Deus Pai é quem por meio Páscoa conduz os pecadores à verdadeira vida de liberdade e felicidade. Que se creia na verdadeira feliz páscoa recordando-se de que bem antes dos muitos anos de escravidão no Egito, o Senhor decretou seu plano infalivelmente ao seu Israel, e, de igual maneira ao Israel nascido do Espírito - a sua Igreja. Que se creia que o Mar abriu-se por Graça mesmo que diante de muitos que não tem forças suficientes para correr como outros tantos que vão à frente. Sim, mesmo para os mais cansados e sobrecarregados, a libertação da Páscoa é para eles também!

É esta a Feliz Páscoa que quero desejar sempre. Felicidade eterna. E o que mais deixa-me feliz é que esta felicidade não está em nós e não depende de mim ou de você, mas tão somente de Deus. Por Cristo ser a verdadeira páscoa é que esta felicidade é desejável todos os dias!

Tu subiste ao alto, levando os teus cativos; recebeste dons dentre os homens, e até dentre os rebeldes, para que o Senhor Deus habitasse entre eles. Bendito seja o Senhor, que diariamente leva a nossa carga, o Deus que é a nossa salvação. Deus é para nós um Deus de libertação; a Jeová, o Senhor, pertence o livramento da morte. Sl 69.18-20

***
Minha esperança de ser preservado até o fim se baseia no fato de que Jesus Cristo pagou caro demais por mim para deixar-me escapar. Cada crente custa-lhe o sangue do seu coração. Vá ao Getsemani e ouça seus gemidos: depois, aproxime-se e observe o suor de gotas de sangue, e diga-me, ele perderá uma alma em favor de quem sofreu assim? Contemple-o pendurado na cruz, torturado, zombado, carregado com um terrível fardo e então escondido da face de seu Pai pelo eclipse; você acha que ele sofreu tudo aquilo e ainda assim permitir que aqueles em favor de quem suportou isso sejam jogados no inferno? Ele será um perdedor maior que eu se eu viesse a perecer, pois ele perderá o que lhe custou a sua própria vida. Aqui está a sua segurança – você é a porção do Senhor, e sua herança não lhe será roubada. - Extraído do Sermão "Eleição" de Spurgeon

Terça-feira, Março 27, 2007

Descanso - Israel Belo de Azevedo*

(Baseado em Mt 11.25-30)


Venha
o cansado

de entregar o caminho ao Senhor e nada acontecer
de fazer projetos que não saem da mente ou do papel
de ver sonhos um após outro inteiramente despedaçados
de portar sofrimentos reais ou imaginários, igualmente pesados

de ouvir promessas divinas que Deus jamais proferiu
de pedir por um milagre a um Deus que parece que dormiu
de orar por uma conversão que mude um querido o perfil
de oferecer a Deus o que Ele jamais pediu

de promover a paz em casa com persistência
de desejar que o cônjuge fique livre da doença
de gostar e amar sem a mínima recompensa
de receber na pele as marcas da violência

de encontrar desinteresses pelos seus suores
de buscar saúde para seu corpo ou sua alma
de observar o solene triunfo dos malfeitores
de confiar que ainda possa sobrevir a calma

de esperar a chegada de quem, parece, não virá
de esperar que as coisas um dia vão melhorar
de esperar que mês que vem o dinheiro vai dar
de esperar aprovação depois de tanto estudar

de fazer o bem sem receber o afago da gratidão
de ouvir a zombaria por ter encontrado a salvação
de querer mudar o mundo e não ver transformação
de carregar sozinho nos ombros a cruz da missão

Venha também o derrotado pelo vício ou pelo caráter ou pelo desejo ou pelo instinto ou pela história

Venha a Jesus porque nEle há descanso

_____

*Diretor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil


Naquele tempo, respondendo Jesus, disse:

Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Mateus 11.25-30





Segunda-feira, Março 26, 2007

Tudo podemos em Cristo que nos fortalece


"Uma masmorra com Cristo é um trono, um trono sem Cristo é um inferno." Martinho Lutero

Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece... O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus. Ora, a nosso Deus e Pai seja dada glória para todo o sempre. Amém. Fp 4.12,13,19,20

Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus. /
Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. II Tm 1.8 / Rm 1.18




Terça-feira, Março 20, 2007

Charles Grimm não morreu!






Segunda-feira, Janeiro 01, 2007

Começando o novo ano: "faze-o conforme as tuas forças"

Caros leitores,

Comecemos este novo ano sendo ousados tanto nas nossas ações quanto na confiança na Providência.

Li recentemente algo a respeito de Theodore Newton Vail que foi gerente geral de Graham Bell a partir de 1879. Pouco tempo depois a empresa cresceu e assim nasceu a famosa AT&T, em 1885. Tal foi a dedicação e empenho na sua missão que criou-se o "Prêmio Theodore N. Vail" dado a funcionários das telecomunicações por atos de bravura em situações de emergência.


Eis uma frase dele que me saltou aos olhos:

"Dificuldades reais podem ser resolvidas; apenas as imaginárias são insuperáveis"


Theodore N. Vail (1845-1920)




Isso me fez recordar dois textos das Sagradas Escrituras que dizem assim:

Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças
Eclesiastes 9.10a

Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão, porque tu não sabes qual prosperará, se esta, se aquela, ou se ambas serão igualmente boas. Eclesiastes 11.6


Evidentemente que a frase do Sr. Vail se aplica dentro do seu devido contexto ou seja, dentro do mundo das possibilidades humanas. Não podemos deixar da fazer aquilo que é possível. Mas, por outro lado, é certo que até as situações inimagináveis são resolvidas conforme a Palavra de Deus nos mostra:


Ora, àquele que é poderoso para fazer muito mais abundantemente além do que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a essa glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém. Efésios 3.20,21

Meditemos nessas coisas. Que o Senhor nos dê a sua bendita sabedoria tanto no nosso agir quanto no nosso crer.

Domingo, Dezembro 31, 2006

Não estou salvo!

Caros leitores,

Desejo a todos vocês um feliz ano novo, mas mais do que isso, desejo a todos a felicidade vida nova que Deus, por meio de Cristo, dá a todo aquele que se achega a Ele. Abaixo, uma mensagem muito apropriada para a passagem de ano.


NÃO ESTOU SALVO!

C. H. Spurgeon (1834-1892)

Transcrição de folheto distribuído pela Chapel Library

* * *

"Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos"

(Jeremias 8.20)

NÃO ESTOU SALVO! Caro leitor, esta é a sua triste condição? Mesmo sendo avisado do julgamento por vir e exortado a buscar a salvação, ainda assim, até agora você não está salvo? Você sabe qual é o caminho da salvação; tem lido sobre isso na Bíblia; ouve pregações a respeito e amigos lhe explicam o assunto. Porém, apesar de tudo, você despreza e, portanto, não está salvo. Não haverá desculpas para você, quando o Senhor julgar os vivos e os mortos. O Espírito Santo tem abençoado, com maior ou menor intensidade, a Palavra que lhe é pregada; tem trazido, da presença divina, momentos de refrigério. Mesmo assim, você se encontra sem Cristo. Assim como as estações, essas oportunidades de esperança lhe chegaram e se foram - seu verão e sua colheita já passaram - e você ainda não está salvo.

Os anos se sucedem em direção à eternidade; logo chegará o último ano de sua vida. Sua juventude logo passará; sua varonilidade estará se escoando, e você ainda não está salvo. Pergunto-lhe: Você será salvo ainda? Há qualquer possibilidade disso? Mesmo as ocasiões mais propícias não lhe levaram a salvação. Seria o caso de outras oportunidades alterarem a sua condição? Vários meios já falharam com você; até mesmo o melhor dos métodos, usado com perseverança e com a maior afeição. O que mais poderá ser feito por você? A aflição e a prosperidade não mais lhe impressionam; lágrimas, orações e sermões se perderam em seu coração vazio. Não se esgotaram as probabilidades de você um dia ser salvo? Não é mais que provável que você permanecerá como está, até que a morte feche para sempre as portas da salvação? Você poderá rejeitar esta suposição; entretanto, ela é racional, pois quem não se lava em águas abundantes, quando as encontra, muito provavelmente permanecerá imundo até o fim. Se o tempo apropriado não chegou, por que haveria de chegar? É natural temer que ele nunca chegará e que, à semelhança de Félix, você nunca encontre ocasião apropriada, até que esteja no inferno. Oh! Considere o que é o inferno e a terrível possibilidade de ser em breve lançado nele!

Leitor, caso você morra sem ser salvo, não haverá palavras para descrever a sua perdição. Você deveria lamentar-se profundamente pela triste estado, falar a respeito dele com gemidos e ranger de dentes. Você será punido com a destruição eterna, banido da glória do Senhor e da glória do seu poder. Esta voz amiga deseja alertá-lo e conduzi-lo à uma vida de seriedade. Oh! Seja sábio a tempo e, antes que passe a oportunidade, creia em Jesus, que é capaz de salvá-lo completamente. Utilize o tempo presente para refletir. Se, em humilde fé em Cristo, houver arrependimento em sua vida, isto será o melhor a lhe acontecer. Não permita que este ano passe e você continue sem perdão; nem que o repicar dos sinos do ano novo o encontrem sem o gozo verdadeiro. Creia em Jesus e viva - agora, agora, agora.

"Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças" (Gn. 19.17).

Fonte: http://www.geocities.com/zoenio/nsalvo.htm

Sexta-feira, Dezembro 22, 2006

Justificação – nenhuma condenação há!

Irmãos e amigos leitores,


O texto abaixo originalmente foi uma resposta que dei num debate sobre a doutrina da salvação. Foi levantada a polêmica pergunta: "O crente pode perder sua salvação?"

Antes de prosseguir, quero fazer um agradecimento especial ao irmão Walter Andrade Campelo pela iniciativa de revisar a resposta e, inclusive, de colocar o título a este texto. Visitem o site dele - Luz para o Caminho - , há bastante material ali sobre doutrinas e vida cristã.

Como vocês poderão notar, apesar de eu ser calvinista, não entrei noutra questão mais polêmica ainda: "predestinação x livre-arbítrio." Portanto, obviamente, para mim, a doutrina da justificação não somente faz reluzir com maior fulgor a graça soberana do Senhor como também é impossível separá-la dos eternos decretos divinos, tão certo como é impossível separar da chama do fogo a luz do calor . Porém, considerando apenas a doutrina da justificação, acredito que é possível fundamentar solidamente que "o crente" não perde a salvação.

Fico devendo ainda as referências bíblicas, mesmo crendo que para um bom leitor da Palavra de Deus seja fácil identificar quando algum texto bíblico foi aludido. Por isso, sem exitar, sugiro principalmente a leitura e meditação da epístola de Paulo aos Romanos.

Por fim, esse tema é de suma importância para nossas almas e merece toda nossa atenção. Lembremo-nos, principalmente nesta época, de que o primeiro natal não tinha outro objetivo senão a manifestação da glória de Deus nas maiores alturas na justificação de homens pecadores como nós para louvor e glória da Sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado em quem temos a redenção pelo seu sangue!


Justificação - nenhuma condenação há!

Por Charles L. Grimm

Revisor: Walter A. Campelo

“A auto-salvação, ou pelo valor pessoal, ou pelo arrependimento, ou por resolução própria, é a esperança inerente da natureza humana, e é muito difícil de ser extirpada". C.H Spurgeon


Se crermos na doutrina da justificação coerentemente, jamais poderemos afirmar que um filho de Deus perde a salvação. Sim, uma vez que Deus declara um pecador justificado, sua salvação é para sempre alicerçada em tal declaração divina. O filho de Deus é assim declarado justo, independentemente de suas obras, sejam elas boas ou más, ou seja, ainda que suas obras sejam as mais santas, ou, que ele incorra em graves pecados, a doutrina da justificação afirma que nada que façamos ou deixemos de fazer pode nos dar ou tirar o céu.

Antes de prosseguirmos, estabeleçamos o que é a justificação.

Primeiro: não é uma mudança de natureza. É uma declaração que não altera o interior de quem a recebe. Portanto, não estamos tratando aqui da santificação que inevitavelmente ocorre na vida daqueles que foram justificados. Por isso se chama “declaração forense”. O que opera uma mudança interior, como afirmamos, é a santificação a qual, lembremo-nos bem, jamais será completa nessa vida. A justificação, ao contrário, é completa, acabada, não pode ser aperfeiçoada.

Segundo: não é perdão, apesar de envolver isso. O perdão é algo negativo, ou seja, cancela a dívida que temos com Deus, mas a justificação é positiva, ou seja, credita a nós a justiça de Cristo, isto é, somos consideramos eternamente justos por causa da obra vicária. Além disso, o pecador declarado justo por Deus tem ainda o privilégio de saber antecipadamente, hoje mesmo, que no Juízo Final não será considerada a sua vida, mas a de Cristo, pois a justificação é também uma declaração escatológica a seu respeito.

Por isso, inclusive, a principal obra do Espírito Santo é apontar Cristo e assim termos a certeza da realidade desse fato de que fomos justificados somente pela graça, tão certo como mergulhamos nas águas do batismo que representa nossa morte e ressurreição bem como a certeza cabal de que assim como nos alimentamos dos elementos da ceia estaremos para sempre nutridos e sustentados por Ele. Exclusivamente Cristo, do início ao fim, é a garantia do salvo.

[...] No minuto em que uma pessoa olha para "Cristo somente" para sua salvação, dependendo da Sua vida santa e sacrifício substitutivo na cruz, naquele exato momento ela ou ele é justificado (posto em posição de justiça, declarado justo, santo, perfeito). A própria santidade de Cristo é imputada (creditada) na conta do crente, como se ele ou ela tivessem vivido uma vida perfeita de obediência - mesmo enquanto aquela pessoa continua a cair repetidamente no pecado durante sua vida. O Cristão não é alguém que está olhando no espelho espiritual, medindo a proximidade de Deus pela experiência e progresso na santidade, mas é antes alguém que está "olhando para Cristo, o Autor e Consumador da nossa fé" (Hb. 12.2). Resumindo, é o estilo de vida de Cristo, não o nosso, que atinge os requisitos de Deus, e é por Ele que a justiça pode ser transferida para nossa conta, pela fé (olhando somente para Cristo) [...]

HORTON, Michael. O que é um evangélico? Jornal "Os Puritanos" Ano V - Número 3


Sabemos também que grandes equívocos ocorrem mesmo nas mentes mais sinceras. Todos estão sujeitos a isso. Por isso, melhor que se definam os pontos que envolvem a nossa salvação. Como se pode ver nas definições abaixo, um dos entraves para a correta compreensão da obra de Cristo está em como conceituamos a Lei de Deus e o pecado. Consideremos exatamente então o que a Bíblia diz a respeito desses assuntos: o nosso coração, ainda que tenha um só leve e tênue desvio do padrão que de nós é requerido, será merecedor da grave e santa ira divina. Deus não vê o pecado de forma mais branda nos seus filhos. O pecado sempre será odioso aos olhos do Senhor e merecerá a ira divina.

[...] a ira de Deus é uma perfeição divina tanto como a sua fidelidade, o Seu poder ou a Sua misericórdia. Só pode ser assim, pois não há mácula alguma, nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, porém, haveria, se Nele não houvesse "ira"! A indiferença para com o pecado é uma nódoa moral, e aquele que não odeia é um leproso moral. Como poderia Aquele que é a soma de todas as excelência olhar com igual satisfação para a virtude e o vício, para a sabedoria e a estultícia? Como poderia Aquele que é infinitamente santo ficar indiferente ao pecado e negar-Se a manifestar a Sua "severidade"(Rm.11:22) para com ele? Como poderia Aquele que só tem prazer no que é puro e nobre, deixar de detestar e de odiar o que é impuro e vil? A própria natureza de Deus faz do inferno uma necessidade tão real, um requisito tão imperativo e eterno como o céu o é. Não somente não há imperfeição nenhuma em Deus, mas também não há Nele perfeição que seja menos perfeita do que outra.

[...]

A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é um teste seguro de até que ponto os nossos corações reagem à Sua influência. Se não nos regozijamos verdadeiramente em Deus, pelo que ele é em Si mesmo, e por todas as perfeições que nEle há eternamente, como poderá permanecer em nós o amor de Deus? Cada um de nós precisa vigiar o mais possível em oração contra o perigo de criar em nossa mente uma imagem de Deus segundo o modelo das nossas inclinações pecaminosas. Desde há muito o Senhor lamentou: "... pensavas que (Eu) era como tu"(Sl.50:21). Se não nos alegramos "... em memória da sua santidade"(Sl.97:12), se não nos alegramos por saber que num dia que logo vem, Deus fará uma demonstração sumamente gloriosa da Sua ira, tomando vingança em todos os que agora se opõem a Ele, é prova positiva de que os nossos corações não estão sujeitos a Ele, que ainda, permanecemos em nossos pecados, rumo às chamas eternas.

PINK, A.W. Os atributos de Deus. Editora PES - Zoênio


Portanto, para melhor compreensão e aplicação disso na vida dos filhos de Deus, vejamos o que disse Lutero no seu famoso prefácio à epístola aos Romanos quanto ao pecado, à fé e as exigências da Lei:

A Lei de Deus - [...] A palavrinha "lei" não a deve entender, neste caso, de maneira humana, como se fosse uma doutrina acerca das obras que devem ser feitas ou evitadas, como é o caso com as leis humanas, as quais são cumpridas por meio de obras, mesmo que o coração não esteja junto; o que Deus julga é o fundo do coração; por isso também sua lei reivindicava o fundo do coração e não se dá por satisfeita com obras; ao contrário, ele pune aquelas obras que não vêm do fundo do coração, por serem hipocrisia e mentira. Daí por que todas as pessoas são chamadas de mentirosas (SI 116), porque ninguém cumpre nem consegue cumprir a lei de Deus do fundo do coração; pois cada um encontrará dentro de si mesmo a indisposição para o bem e a disposição para o mal. E onde não houver livre disposição para o bem, o fundo do coração não estará com a lei de Deus, ali com certeza haverá pecado e merecida ira de Deus, ainda que por fora pareça haver muitas boas obras e vida honrada [...]

O Pecado – [...] significa na Escritura não somente a obra exterior do corpo, e sim toda a atividade que se inquieta e movimenta ao se fazer a obra exterior, ou seja, o fundo do coração com todas as forças, de sorte que a palavrinha "fazer" significa: a pessoa cai e anda inteiramente no pecado. Pois de qualquer maneira não acontece nenhuma obra exterior do pecado sem que a pessoa participe plenamente, de corpo e alma [...]

A Graça – [...] Pode acontecer que as dádivas e o Espírito aumentem diariamente em nós e ainda assim não sejam perfeitos, de sorte que ainda restem em nós maus desejos e pecado a se oporem ao Espírito, conforme capítulo 7.5ss e Gálatas 5.16ss, e a promessa de contenda entre a semente da mulher e a semente da serpente. Ainda assim a graça é tal que perante Deus somos considerados inteira e plenamente justificados; pois sua graça não se divide e não vem em parte, como acontece com as dádivas, mas nos acolhe totalmente na benevolência, por causa de Cristo, nosso intercessor e mediador [...]

A Fé - [...] Fé não é a ilusão e o sonho humano que muitos acham que é. E quando vêem que não acontece uma melhoria de vida nem boas obras e ainda assim muito ouvem e falam da fé, caem no erro de dizer que a fé não é suficiente, que seria preciso fazer obras, se é que se quer ficar justo e salvo. A conseqüência disso é que, ao ouvirem o evangelho, agem precipitadamente e, por esforço próprio, criam um pensamento no coração, que diz: "Eu creio". Isso eles então consideram uma fé como deve ser. Mas assim como isso não passa de inspiração e pensamento humano, que jamais atinge o fundo do coração, também nada ocasiona, tampouco se segue uma melhoria.

Fé verdadeira, entretanto, é uma obra divina em nós, que nos modifica e faz renascer de Deus (Jo 1.3), além de matar o velho Adão, transformando-nos em pessoas bem diferentes de coração, sentimento, mentalidade e todas as forças, trazendo consigo o Espírito Santo. Ah, há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem. Ela também não pergunta se há boas obras a fazer, e sim, antes que surja a pergunta, ela já as realizou e sempre está a realizar. Quem, porém, não realiza tais obras, é pessoa sem fé, que anda às apalpadelas à procura da fé e de boas obras e nem sabe o que é fé nem boas obras, e ainda fica falando muito e conversando fiado sobre as mesmas [...]

LUTERO, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 179-192.


Mas, andemos adiante indo ao cerne da questão: como é natureza de quem foi justificado, salvo? Sim, pois há um divisor de águas que se abre cada vez mais a partir da concepção do que foi feito por Cristo na cruz pelo pecador. Ora, há uma diferença enorme entre dizer que Cristo morreu em lugar do pecador e por isso por seus pecados e que Cristo morreu pelos pecados do pecador e por isso ele. Ora, nenhum pecado é obra do acaso, mas fruto do ser que o pecador é. Não há pecado que não seja evidência de que somos pecadores por natureza. Nascemos em pecado e morreremos nele – exceto, claro, se formos transformados quando vivos na Segunda Vinda do nosso Salvador.

Assim, se cremos que a obra de Jesus Cristo foi feita, em lugar da natureza pecaminosa, em lugar sim – e completamente - daquilo que o pecador é, no âmago do seu ser, logo não há segurança maior para aqueles que se refugiam num Salvador que os substituiu plena e eternamente.

Portanto, se há algum pecado que um crente possa imaginar que o fará perder a salvação, não há nada mais desesperador para ele que passar, diariamente, lutando contra a carne, o mundo e o diabo e perder algumas dessas lutas. A espada flamejante da Lei está apontada para ele diuturnamente sem que lhe seja dado descanso. É impossível descansar de si mesmo em si mesmo. O descanso que tem e sua esperança são a sua memória, mais do que o memorial da ceia representa para ele. Sim, se ele lembrar de todos os pecados, poderá confessá-los, um a um, e assim procurar dormir um pouco em paz. A sua confissão de pecados ser tornará muito mais uma penitência do que um reconhecimento da sua incapacidade de amar a Deus com todas as suas forças, coração e entendimento. Mas sabemos que nenhuma confissão genuína de pecado pode ser pronunciada sem que seu coração, fonte de pecados, esteja junto de sua boca, sem que sua confiança esteja unicamente na obra consumada de Cristo.

[...] Uma fé é inteiramente inútil quando se une qualquer coisa a Cristo com respeito a salvação da sua alma. Você não deve somente depender de Cristo para salvação, mas deve depender de Cristo somente e exclusivamente de Cristo.

Existem multidões de homens e mulheres batizados que professam honrar a Cristo, mas na realidade O desonram grandemente. Eles dão a Cristo um certo lugar no seu sistema religioso, mas não o lugar que Deus tencionou que Ele ocupasse. Cristo, exclusivamente, não é “tudo em todos” para suas almas. Não!

É Cristo e a igreja; ou Cristo e os sacramentos; ou Cristo e Seus ministros ordenados; ou Cristo e a bondade deles; ou Cristo e suas orações; ou Cristo e a sinceridade e caridade deles, nas quais eles realmente descansam suas almas.

Se você é um cristão deste tipo, eu também o advirto claramente que sua fé é uma ofensa a Deus. Você está mudando o plano de salvação de Deus em um plano da sua própria invenção. De fato você está depondo Cristo do seu trono, dando a glória que Lhe é devida a outro.

Eu não me importo quem lhe ensina sua fé, cuja palavra você confia. Se ele é papa ou cardeal, arcebispo ou bispo, diácono ou presbítero, episcopal ou presbiteriano, batista, independente ou metodista; quem quer que acrescente alguma coisa a Cristo, está ensinando incorretamente.

[...]

Cuidado para não dar às ordenanças a honra devida ao Senhor. Cuidado para não descansar o fardo de sua alma em coisa alguma a não ser Cristo e Cristo exclusivamente. Cuidado para não ter uma fé que seja inútil e que não pode salvar [...]

RYLE, J.C. Do sermão “Tipos inúteis de fé”, pregado no séc. XIX Biblioteca Reformada


Cabe ainda mais uma vez afirmar que biblicamente é incontestável que a morte de Jesus - e não somente a morte, mas Sua vida - foi substitutiva em lugar de alguém. O ministério de Cristo é vicário - "em lugar de". Não é por acaso que "Vice" é o que substituiu - acredito que somente na modernidade adquiriu o sentido de "segundo". O papa, dito Vigário de Cristo, é, por isso, considerado pelo romanismo como "o substituto" de nosso Senhor aqui na Terra. Portanto, tudo dependerá de como a obra de Cristo é compreendida. Não é por acaso ainda que o verdadeiro Vigário de nossas almas é denominado nas Escrituras como um Fiador. Quem nos garantiria maior consolo do que um Fiador assim? Se de fato nossa natureza, nosso coração é tudo o que descrevemos até aqui, então, nada mais firme do que um Fiador de tal quilate. Igualmente para Deus, não nos esqueçamos disso, o Fiador é exatamente aquele que pode preencher todas as demandas exigidas.

Por isso, devemos ampliar o ângulo de nossa visão e ver toda a obra de Cristo, não somente focando-a num ponto apenas: a cruz. A vida perfeita, a morte e a ressurreição de Jesus estão unidas na salvação. Consideremos o ministério do Senhor de forma completa. É importante destacar isso, pois Deus não aceita um pecador somente porque ele foi perdoado1.

Ora, ninguém entra no céu somente porque foi perdoado. Deus, o Juiz da Terra, o Santíssimo dos Santos, exige que tenhamos uma vida perfeita, uma vida justíssima, impecável, sem ruga ou mancha alguma. O nosso coração deve estar completamente limpo. Deus requer santidade plena de nós, não apenas dos nossos atos, sejam eles omissivos ou comissivos. Quer uma vida puríssima, reta, em 100% do tempo. Ah, mas isso é impossível! Sim, de fato é. Por isso, a vida de Cristo, o Cordeiro sem mácula, é considerada como sendo nossa. Quando falamos que "o sangue de Jesus tem poder" ou quando cantamos "há poder, sim, força sem igual, só no sangue de Jesus" não apenas estamos fazendo uma referência à cruz, mas à toda a vida imaculada do Cordeiro de Deus. O sangue de Cristo, em si mesmo, não teria poder, mas o que ele representa - uma vida perfeita vicariamente em nosso lugar - isso sim, tem poder ilimitado e irresistível – não há poder igual.

Além disso, se nós, humanos, débeis na fé muitas vezes, ficamos deslumbrados com o potentíssimo sacrifício da vida e morte de Jesus, não esqueçamos de que muito mais para Deus a obra de Cristo tem valor. Por isso, nossa fé não é baseada em emoções, mas em fatos. Fatos que não somente são realidades para nós, mas, que antes, são realidades para Deus. Se não fossem realidade para Deus, não haveria motivo para nos alegrarmos com a obra de Cristo, seríamos os mais desesperados dos homens. Porém, sabemos que Deus ficou plenamente satisfeito com o fruto do penoso trabalho do Seu Filho. Graças a Deus que nosso Senhor ressuscitou e isso prova a todos que o Sumo Sacerdote da Igreja teve aceitação por parte do Senhor Jeová, no qual não há uma possibilidade sequer de não saber a verdade e a realidade dos fatos. Maior consolo ainda é sabermos que Cristo não veio por vontade própria, mas enviado por Deus, nosso Pai.

Portanto, se entendermos que Deus considerou toda a obra de Cristo em lugar daqueles que são salvos por Sua graça, é impossível que a declaração da imputação da justiça de Jesus seja mudada, pois não há o que se possa acrescentar ou tirar dessa obra2. Somos justificados justamente porque somos incapazes de nos salvar, de termos um coração puro. É impossível alguém chegar ao céu e dizer: "Obrigado Senhor, pois me aceitaste no teu reino pela minha força de vontade, e fiz bom uso da tua graça, diferentemente daqueles que não souberem aproveitá-la como eu e acabaram se perdendo no caminho".

Somado a isso, também é bom lembrarmos de que a teologia reformada pôs de volta no seu devido lugar o conceito de remissão de pecados. Acabou assim a errada distinção entre a pena do pecado e a satisfação por ele. Dizem os católicos romanos que Cristo apenas nos redimiu da pena do pecado na cruz, mas que estamos obrigados a dar satisfação por eles por meio de obras, penitências, etc. A Reforma abriu a Bíblia e protestou: "Solus Christus" - Somente por Cristo! Isso significa que Cristo não somente nos redimiu da pena do pecado, mas cumpriu plenamente a satisfação de todos eles em lugar dos pecadores. Nada mais é necessário, Somente Cristo! Glórias a Deus por isso.

[...] Todo homem, portanto, admite a verdade da declaração de que os homens estão em um estado miserável a menos que DEUS trate misericordiosamente com eles, não lhes imputando os seus pecados. Mas Davi vai mais longe, declarando que toda a vida do homem está sujeita a ira e maldição de DEUS, exceto quando Ele concede da Sua livre graça para recebê-los no Seu favor. Sobre isso o Espírito, que falou por Davi, é um intérprete incontestável e testemunha para nós através da boca de Paulo, "Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos." (Rm 4.6-7).

Se Paulo não tivesse usado esse testemunho, seus leitores nunca teriam penetrado no real significado daquilo que foi dito pelo profeta, pois constatamos que os papistas, apesar de cantarem em seus templos: "Abençoados são aqueles cujas iniqüidades são perdoadas", etc, passam sobre isso como se fosse um ditado comum, de pouca importância. Mas com Paulo, esta é a definição completa da justiça da fé; como se o profeta tivesse dito que os homens somente são bem-aventurados quando são reconciliados com DEUS e contados como justos por Ele.

[...]

Que as obras dos santos são indignas de recompensa porque elas são manchadas, parece um duro discurso aos papistas. Mas, nisto eles denunciam sua ignorância grosseira, estimando, de acordo com suas próprias concepções, o julgamento de DEUS, em cujos olhos o próprio brilho das estrelas nada mais é do que trevas.

Portanto, esta é uma doutrina estabelecida: que somos considerados justos diante de DEUS pela remissão gratuita de pecados. Este é o portão para a salvação eterna e, por conseguinte, só aqueles que confiam na misericórdia de DEUS, são bem-aventurados. Devemos ter em mente o contraste que já mencionei, entre crentes que, abraçando a remissão de pecados, confiam somente na graça de DEUS, e todos os outros que não se colocam no santuário da divina graça.

CALVINO, João. Um comentário do Salmo 32 Zoênio

_____________. O livro dos Salmos vol.2. Trad Valter Graciano Martins 1ed, São Paulo-SP: Edições Paracletos, 1999. pp 38-40


Lutero estava certo quando afirmou que a doutrina da justificação é sobre o que a Igreja permanece de pé ou cai. Quanto menos pregá-la, mais cristãos acharão que devem ainda prestar satisfações penitenciais por seus pecados, não descansarão na obra acabada, terminada, consumada de Jesus. Sua fé será mais voltada para o interior, do que para fora, para Aquele que é o autor e consumador dela.

Portanto, se tu que estás lendo estas palavras ouvires Deus dizer-te:

"Estás justificado! Por minha graça estás perdoado, e não somente isso, mas considero a vida de Cristo como sendo tua, impecável, perfeita. Enfrenta o bom combate da fé e lembra-te que EU jamais me esquecerei de que nenhuma condenação há para aqueles que foram dados a Cristo, pois a vida dele é a tua vida, a sua morte é a tua morte e tão certo como ele ressurgiu em teu lugar, será a tua ressurreição!"


Há como imaginares que um filho de Deus perde a salvação pensando nisso tudo? Mas isso não são apenas belos pensamentos, ainda que sejam paráfrase dos textos bíblicos, são fatos patentes e inalteráveis para Deus. Crê no que Deus te diz na Sua Palavra.

[...] Novamente eu insisto, o seu olhar de fé deve agora ser direcionado inteiramente para fora de você mesmo, e colocado em Jesus. Todo cuidado é necessário a fim de estar certo de que o preparo para a morte não esteja firmado em você, mas somente em Cristo. Deus não lhe aceita tendo como base um coração quebrantado, um coração limpo, um coração suplicante, ou um coração cheio de fé. Ele lhe aceita plena e tão somente, na expiação do Seu bendito Filho. Creia confiadamente, com uma fé infante, nesta expiação. – "Cristo morreu pelo injusto" (Romanos 5.6) – e você será salvo.

A justificação é evidenciada quando um pobre pecador, condenado pela lei e destruído, cobre-se pela fé, com a justiça de nosso Senhor Jesus Cristo, Rm 3.22 –: "justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem" – esse pecador, então, está justificado e preparado para morrer. Somente aquele que se despe de sua justiça própria e corre para a abençoada "cidade de refúgio", o Senhor Jesus Cristo, e esconde-se lá do "vingador do sangue", pode exclamar numa linguagem de triunfante fé: - " Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8.1) [...]

WISLOW, Otávio. Jornal "Os Puritanos" Edição de Abril/Maio/Junho de 1999


Por fim, o que é preciso entender na doutrina da salvação é que ela não é um processo segmentado. Mas um pacote completo. Ninguém recebe algo da salvação sem a outra parte dela. Quem é salvo, é salvo e ponto final. Não compartimentemos em partes a obra de Cristo. A obra dele foi completa de fato, não somente para nós, mas para Deus. Olhemos somente para Ele e nele somente aguardemos nossa salvação. Não existe nenhuma obra de salvação que não seja assegurada por Quem pratica a própria ação do verbo salvar. A salvação é obra de Deus, pertence ao Senhor. Se entendermos que a salvação é inferior ao que a Bíblia apresenta com provas irrefutáveis, cairemos no absurdo de dizer que o sangue de Jesus é limitado por nossa natureza pecaminosa. Fomos salvos justamente por isso, por sermos pecadores. Fomos regenerados e justificados exatamente por isso! Não há outro motivo a não ser exatamente esse: somos pecadores!3

Pastores! Preguem a doutrina da justificação novamente! Façam soar as trombetas de Deus em meio aos adormecidos e desatentos à voz divina: Nenhuma condenação há! Nenhuma condenação há!

"Nada trago em minha mão,

Só na Tua cruz me agarro"


"Oh, meu querido irmão, aprenda a conhecer a Cristo crucificado. Aprenda a entoar um novo cântico; a desistir de obras anteriores, e a clamar a Ele: Senhor Jesus, Tu és a minha retidão, e eu sou o Teu pecado. Tomaste sobre Ti o que é meu, e me deste o que é Teu. O que eu era, nisso Te tornaste, a fim de que eu me tornasse naquilo que eu não era. Cristo habita somente com os pecadores confessos. Medita com freqüência no amor de Cristo e provarás quão doce Ele é." Martinho Lutero



NOTAS - RECOMENDO A LEITURA

[1] Alguns estudiosos sustentam que "justificação" e "perdão" são sinônimos. Por exemplo, Sandlay e Headlam escreveram que justificação é "simplesmente Perdão, Perdão Gratuito"; [7] já o professor Jeremias, mais recentemente, insiste em dizer que "justificação é perdão, nada mais que perdão". [8] Mas isso com certeza não pode ser verdade. Perdão é algo negativo, é a absolvição de uma penalidade ou uma dívida; justificação tem conotação positiva - é declarar que alguém é justo, é dar ao pecador o direito de desfrutar novamente o favor e a comunhão de Deus. Marcus Loane escreveu: "A voz que anuncia perdão dirá: 'Pode ir. Você está livre da pena que o seu pecado merece.' Mas o veredicto que significa aceitação [sc. justificação] dirá: 'Pode vir. Você é bem-vindo para desfrutar todo o meu amor e a minha presença'". [9] C.H. Hodge esclarece com mais profundidade essa diferença ao elaborar a antítese entre condenação e justificação: "Condenar não é meramente punir, mas sim declarar o acusado culpado ou digno de castigo; e justificação não é meramente liberar desse castigo, mas declarar que o castigo não pode ser aplicado com justiça [...] Perdão e justificação são, portanto, essencialmente distintos. O primeiro é a absolvição do castigo, o outro é uma declaração de que não existe nenhuma base para a aplicação do castigo".[10]

Se justificar não é o mesmo que perdoar ou desculpar, tampouco é o mesmo que santificar. Justificar é considerar ou declarar justa uma pessoa, e não torná-la justa. Este foi um ponto essencial no debate que se deu no século XVI com respeito à justificação. A posição católico-romana, conforme expressa no Concílio de Trento (1545-64), era que a justificação se dá no batismo e que a pessoa batizada, além de ser purificada dos seus pecados, recebe também, simultaneamente, uma justiça nova e sobrenatural. [11] Dá bem para entender o motivo que levou a tal insistência. Foi o medo de que, com uma mera declaração de justiça, a tal pessoa permanecesse em estado de injustiça e não-renovação, podendo até sentir-se encorajada a persistir no pecado (antinomismo). Foi exatamente a crítica que levantaram contra Paulo (6.1, 15) e que o levou a enfatizar com todas as forças que os cristãos batizados tinham morrido para o pecado (de tal forma que não podiam, em hipótese alguma, continuar vivendo nele) e que haviam ressuscitado para uma nova vida em Cristo. Ou, em outras palavras: a justificação (um novo status) e a regeneração (um novo coração), embora não sejam idênticas, são simultâneas. Todo crente justificado foi também regenerado pelo Espírito Santo e, dessa forma, destinado à santificação constante. Ou, se quisermos citar Calvino, "ninguém pode ostentar a justiça de Cristo sem a regeneração". [12] Ou então, "o apóstolo sustenta que quem pensa que Cristo nos confere justificação gratuita sem nos dar novidade de vida está, vergonhosamente, dividindo Cristo em pedaços".

STOTT, John. A Mensagem de Romanos. Trad. Silêda e Marcos D S Steuernagel. 1ed. São Paulo: ABU Ed., 2000. 528p.; pp. 122-135.

[2] "A justiça pela qual somos justificados, não é algo feito por nós nem nada que tenhamos forjado em nós mesmos, mas algo feito por nós e a nós imputado. É a obra de Cristo, o que Ele fez e sofreu para satisfazer as demandas da lei (...) não é nada que tenhamos criado ou forjado em nós ou algo inerente em nós. Por isso dizemos que Cristo é nossa justiça; que somos justificados por Seu sangue, Sua morte, Sua obediência; somos justos nEle e somos justificados por Ele, ou em Seu nome. A justiça de Deus, revelada no Evangelho e pela qual somos constituídos justos é, portanto, a justiça perfeita de Cristo, a qual cumpre completamente todos os requisitos da lei a que os homens estão obrigados e que todos os homens tem quebrado”. Fonte: Jornal OS PURITANOS - extraído do site www.monergismo.com

[3] 60. Como você é justo perante Deus?

R. Somente por verdadeira fé em Jesus Cristo (1).

Mesmo que minha consciência me acuse de ter pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus, e de não ter guardado nenhum deles, e de ser ainda inclinado a todo mal (2) , todavia Deus me dá, sem nenhum mérito meu, por pura graça (3) , a perfeita satisfação, a justiça e a santidade de Cristo (4). Deus me trata (5) como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador; e, como se pessoalmente eu tivesse cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por mim (6). Este benefício é meu somente se eu o aceitar por fé, de todo o coração (7).

(1) Rm 3:21-26; Rm 5:1,2; Gl 2:16; Ef 2:8,9; Fp 3:9. (2) Rm 3:9; Rm 7:23. (3) Dt 9:6; Ez 36:22; Rm 3:24; Rm 7:23-25; Ef 2:8; Tt 3:5. (4) 1Jo 2:1,2. (5) Rm 4:4-8; 2Co 5:19. (6) 2Co 5:21. (7) Jo 3:18; Rm 3:22.

Catecismo de Heidelberg (1563), perg. nº 60.